Relato de um Viciado – Mergulhar

nameless

 

Mergulhar: v. t. Imergir num líquido; introduzir na água; afundar.

Esse é meu passatempo. Mergulhar. Melhor, “mergulhar”, afinal, não faço no sentido original. A internet é uma rede, você sabe. Informações cruzando-se de norte a sul, leste a oeste. Um instante se passa, mas gigabytes de informação correm pelo mundo todo. Imagens, mensagens, vídeos, tudo isso nas costas de algo que sequer vemos. Atlas carrega nosso mundo, mas duvido que ele o veja. Similarmente, a internet carrega nossas vidas, nossos momentos, e nós não a vemos. Bem, a maior parte de nós.

Como já disse, meu hobby é mergulhar. Como você pode ter imaginado, eu mergulho na rede. Banho-me em informação. Pode-se dizer que ela é meu verdadeiro lar. Profundamente envolvido por dados sobre outros, sinto me completo. Minha vida não possui algo de especial, um homem qualquer. Tive namoradas, mas nada que durou muito. Completei a universidade, consegui um emprego, mas acabei caindo na rotina. Acho que foi por ter afundado no desespero de terminar a vida sem ter realizado qualquer grande feito que despertei essa habilidade. Eu senti que podia, e ao tentar, de fato, pude.

O gatilho? Contato. Tocar qualquer superfície capaz de fazer contato com a internet permite que eu a invada. Meus “aperitivos” são celulares com 3G. Aliso-os carinhosamente assim como uma mãe ao abraçar uma filha. Imagens lampejam brevemente em minha imaginação: Pais gravando as primeiras palavras de seus filhos, crianças dançando, jovens filmando aventuras gastronômicas. Tudo isso chovendo em mim.

Mas meu verdadeiro ideal são computadores. Desapareço por completo ao tocar num computador. Sinto o fluir de data, como se deitado num rio estivesse. Consigo inclusive partilhar dos sentimentos por trás de arquivos. Vergonha, orgulho, excitação. Um mar de consciências.

Similar ao verdadeiro mar, a rede também possui tom azul. Quanto mais profundo, mais escuro o tom. Redes sociais são claras como o céu, e as profundezas negras como ébano. Inicialmente, eu temia a escuridão, mas aprendi a amá-la. O silêncio, a calma. Pode facilmente ser comparado a dormir.

“Mergulhar”. Para preencher o vazio da minha vida, invado a privacidade dos outros. Apesar disso, não divulgo seus segredos, por mais grotescos e doentios que sejam. Isso reduz meus pecados? A resposta é “não”, mas agora já é tarde para arrependimentos. Tentei parar, mas acabei sofrendo de abstinência. É como comer vinte hambúrgueres por dia e, de repente, passar a comer só um. Impossível, seu corpo exige mais. Meu cérebro não consegue mais lidar com pequenos fatos de cada vez. Só serei capaz de parar ao morrer. Mas até lá, os pensamentos do mundo serão todos compartilhados comigo.

 

/Nameless

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