Relato de um Viciado – Minha confissão e despedida

fábio

 

Eu não sinto orgulho, na verdade me envergonho demais. Tudo pareceu tão bom na hora, mas agora toda a luz se tornou trevas.

Meu nome? Não, vamos manter essa parte em sigilo está bem? Prefiro apenas dizer que tenho vinte e dois anos e já não posso mais dizer que tenho uma vida, eu me perdi quando tentava me encontrar.

Quando tinha apenas doze anos vi coisas, vivi coisas que destruíram a minha alma, o meu corpo, o meu coração. Em uma noite senti que toda a minha vida não passava de uma mentira, mas não vamos falar sobre isso, não é o que realmente importa.

Sim, eu fui fraco, eu tentei fugir, me esconder, negar a verdade. Acabei com uma garrafa de Whisky com poucos goles e o meu objetivo estava concluído. Naquela noite eu não pensei em nada, não vi nada. Alcancei a paz da inconsciência. O problema foi que eu gostei. Nos meses que se seguiram eu sempre ia até a casa de amigos e bebia escondido, ficava para dormir e dessa forma ninguém desconfiava. Hoje vejo que com quinze anos já era um alcoólatra. O pior é que eu gostava. Foi aos quinze que meus pais descobriram, cheguei em casa trocando as pernas, um amigo me trouxe, não conseguia nem mesmo andar sozinho. Me lembrando agora sinto muita vergonha, mas na época que isso aconteceu eu pensei estar ganhando status com os meus amigos, afinal, eu sempre era convidado para todas as festas e estava sempre rodeado de pessoas.

Com dezessete anos fui passar o carnaval em uma casa de praia com alguns amigos. Foi a primeira vez que eu fui parar em um hospital por causa da bebida. Perdi a consciência naquela noite, sofri um bloqueio de memória e não me lembro de nada a não ser acordar em um leito de hospital.

No meu aniversário de dezoito anos resolvi me dar um presente. A bebida não estava mais me satisfazendo então resolvi fumar um baseado. Nem me lembro do que aconteceu, do que eu senti ou como reagi. Estava muito bêbado quando fumei. Fui com um grupo de amigos para uma praia a lá queimamos o baseado. Sei que no outro dia acordamos lá mesmo, mas o que fizemos eu não tenho ideia. Por falar nisso, o meu melhor amigo morreu de overdose. A mãe dele o expulsou de casa depois de ele vender a televisão novinha que ela tinha comprado, vendeu para pagar a erva, mas quando ela mandou ele ir embora, ele ainda conseguiu roubar a bolsa da sua avó. Ela tinha acabado de receber a pensão e ele cheirou todo o dinheiro que pegou. Estava muito nervoso e irritado com a mãe, ela não entendia que ele ir morrer se não pagasse. Ele pagou, comprou mais, fumou e cheirou tudo. Ele não aguentou. Quando vi isso acontecer com ele, eu deixei a minha casa. Sai até do meu estado. Vez por outra eu telefono para a minha mãe para dizer que eu estou bem, digo que eu estou trabalhando, morando com amigos e fazendo faculdade, pois o sonho dela foi me ver formado. Não tenho coragem de contar para ela a verdade. Ela já sofreu demais por tudo o que aconteceu no passado e pela vida que eu escolhi, não posso dar mais desgostos para ela. Não falo com o meu pai há quatro anos desde quando sai da minha casa. Ele é o culpado do sofrimento da minha mãe.

Eu comecei com álcool e já experimentei de tudo, de tudo mesmo. Uma coisa vai abrindo a porta para a outra sabe. Quando uma substância deixa de lhe fazer viajar, de lhe dar prazer ou paz, ela deixa de servir e você vai para uma mais forte. Hoje estou nas ruas, já fui internado duas vezes em clinicas de recuperação, mas não tem jeito não. Já sei qual é o meu destino. Todos os dias eu peço dinheiro a todo mundo para garantir uma pedra, pois é somente nesse momento que eu tenho paz. Não sinto fome, frio ou medo. As vezes eu guardo carros, as vezes eu ajudo as pessoas e as vezes eu também roubo. Não tenho mais controle sobre o que eu faço.

Olhando agora para o passado eu tenho certeza de que se naquela noite a dez anos eu conseguisse manter a minha ilusão eu não teria vindo por esse caminho. Teria feito a faculdade de direito que eu sempre quis, teria a minha casa e talvez tivesse me casado. Sonhos distantes que jamais irão se realizar. Não consigo nem me concentrar direito hoje em dia.

Não me entristeço pela vida que levei, pois fiz o que pensei ser melhor. Me envergonho de ter sido covarde e não ter conseguido encarar aquele problema de frente, em ter escolhido fugir e me juntado a pessoas que não tinham a menor perspectiva de futuro, em querer impressionar pessoas vazias. Sinto por minha mãe que não vai mais receber notícias minhas e ficará preocupada, mas não posso deixar ela me ver como estou hoje, ela não vai suportar ver a pessoa que eu me tornei. Conto os dias, durmo sem saber se irei acordar, mas quando eu cheiro, eu me sinto em paz. Sei que morrerei em breve, na verdade eu até desejo a morte porque a muito tempo eu me sinto morto e porque eu sei que isso só terá um fim quando eu morrer. Não chore por mim minha mãe, eu já estou morto, se escolhi deixá-la foi por não aguentar viver ao lado do crápula do meu pai e não querer ser mais um estorvo para a senhora. Não vai ser preciso enterrar seu filho, a vida já se encarregou disso.

Trago esse bilhete em meu bolso para que aquele que encontrar o meu corpo possa encaminhá-lo para a minha mãe, o endereço está no verso.

Peço mais um favor a nobre alma que puder fazer isso por mim: Diga a minha mãe que trago comigo o seu sorriso e o seu abraço e os levarei comigo para onde eu for. Diga a minha mãe que eu amo e que peço perdão. Perdão por tê-la deixado sozinha com aquele cara.

 

A noite sempre é mais escura antes do amanhecer…

 

/Fábio Carlos

 

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