Desafio do Futuro – Subway

O clima tornou-se severo. O vento frio queimava plantas e nada mais cresceria do solo por um longo tempo. A corrida pela sobrevivência começara e as nações discutiam o melhor modo de enfrentar o inevitável. Governos ruíram na esperança de fazer que seu povo sobrevivesse, mesmo que a custos de vida, à nova adversidade. Os hospitais não permitiam que os recém nascidos fossem para casa, informando o falecimento às famílias. Mães se matavam todas as semanas por não suportar a perda, e os pais em desespero as seguiam.

Os recém nascidos eram estocados como sementes, como gado. Por 25 anos, rios e lagos foram desviados, deslocados para o subterrâneo e cada vez mais fundo, acelerando a seca e o congelamento da superfície. Mas era esta a única esperança…

No décimo primeiro dia de janeiro chegara o tão anunciado incidente. Caía neve em todos os países, quando deveria haver sol…

Ipanema. Pessoas veem surfistas afogarem-se, imaginando ataques de tubarões, porém os esportistas eram atacados de cãibras.

Cairo, a tempestade de areia torna-se uma tempestade de neve e curiosos saem para se divertirem no fenômeno gelado.

Kyushu, Japão, a erupção de SakuraJima adormece lentamente, as cinzas caem gélidas sobre os cientistas.

No metrô da metrópole o vento perde força, mas torna-se mais frio. O menino desce as escadas de mão dada ao seu pai. Está ansioso para andar no metrô pela primeira vez. A estação lhe parece cheia, trens parecem atrasar.

Placas cerram repentinamente a passagem para a superfície, com o barulho mais alto do que as vozes de tantas pessoas. As  luzes piscam e ficam às escuras por um momento. Tornam a acender fraquejantes.

O menino grita e chora, ainda tendo a mão de seu pai bem presa a sua e todo o lado direito do corpo coberto por sangue. O homem ao seu lado fora esmagado dos ombros para baixo. As pessoas gritam nervosas, choram.

– ABRIGO SEGURO, MANTENHA A CALMA. SELAMENTO COMPLETO, MANTENHA A CALMA. AGENTES DE SEGURANÇA A CAMINHO, MANTENHA A CALMA. …

– O que está acontecendo aqui?

– Deixe-nos sair!

A gravação repetiu-se até que o alto-falante fosse desligado pela agente Amanda que chegou acompanhada de outros também fardados.

– Sou a Agente Amanda, mantenham-se calmos.

– Papai…

Um agente soltou bruscamente a mão de pai e filho, que ainda chorava a plenos pulmões. O cadáver fora colocado em uma caixa com lona. O mesmo aconteceu com outros corpos, e de alguns apenas as pernas ou somente os pés.

– Isto é um sequestro? São terroristas? O que querem?

O que passava na cabeça de Rômulo era o mesmo que nas diversas ali presentes. Sua namorada ao lado parecia tão aterrorizada quanto muitos.

– Terão esclarecimentos logo que possível. Viemos coordenar o grupo e pedimos cooperação de todos. Primeiramente não se trata de um ato hostil ou terrorista. No dia de hoje, em aproximadamente mesmo horário, todas as estações de metro foram fechadas, deste mesmo modo. Pessoas trancadas não apenas em nosso país. Pedimos que colaborem do melhor modo, para que possamos colaborar mutuamente.

arctosA agente religou o alto falante prosseguindo informações e seguiu para as escadas de concreto com os companheiros. As pessoas na plataforma os seguiram e dentro dos vagões pessoas se sobressaltaram quando os vagões subiram por guindastes dos trilhos para a plataforma. Foram colocados três vagões uns sobre os outros, como na fileira seguinte. Na outra apenas dois vagões sobrepostos. Nas janelas os tripulantes nervosos puderam verificar as passarelas colocadas da escada de concreto para que pudessem sair e se juntar aos outros.

– PARA SUA SEGURANÇA MANTENHAM-SE ATRÁS DAS FAIXAS AMARELAS. PARA SUA SEGURANÇA, MANTENHAM-SE ATRÁS DAS LINHAS AMARELAS.

– Não tem mais trem algum nos trilhos, não é? Eu vou dar o fora daqui. – Rômulo.

– Atrás da faixa, para sua segurança! – Amanda.

O jovem a ignorou e saltou para os trilhos com outros colegas da escola. Grades amarelas, que antes evitavam a entrada de animais sob a plataforma, ergueram-se como murada por toda a extensão dos trilhos, cercando o canal dos trilhos.

– Parem a automação! Parem agora! – Amanda.

– Esta controlando todas as estações. Não há como parar. – Agente Jean.

Notando o comportamento das grades alguns retornaram e tentaram subir sendo ajudados pelos agentes. A baixa sirene começou a tocar quando a agente fora ajudar Rômulo. O rapaz voltou quando viu a água sobre seus pés, agarrando-se ao braço da agente que segurou-lhe como e o quanto pode para que não fosse arrastado. Em dois minutos tudo o que ela tinha nas mãos era um pedaço da roupa. Pouco depois a água acalmava-se ao ter preenchido todos os trilhos. Podiam-se ver peixes nadando pouco depois, mas observando a água não era o que a agente via.

Ela formou uma fila com os seus agentes, de costas para o rio todos eles observavam a população. Alguns irritados, outros choravam. Alguns queixavam a falta de informações e chamavam pelo responsável.

– Aqueles com problemas de saúde agravados pelo emocional, por gentileza acompanhem nossos médicos. – Amanda.

Alguns se moveram em direção dos médicos de jaquetas de brim branco, e desapareceram por um corredor.

– Vão matá-los!

– Quando entrarmos em guerra?

– Menino, pode vir até aqui? – Amanda.

Gabriela teve medo de deixar que a criança fosse. Ele tremia ainda assustado pelo que ocorrera ao seu pai. Mas agente abaixou-se diante dele, e retirou da voz o tom autoritário que tivera até então.

– Seu pai foi um herói por trazê-lo aqui hoje, você está vivo hoje. Por seu pai todas essas pessoas estão vivas. Eu agradeço o que seu pai fez, ele foi muito corajoso. – Amanda.

A agente tornou a levantar e Gabriela avançou dando a mão a criança. Aproximou-se da grade amarela. Na parede do outro lado do rio um vídeo começava a ser passado, com as falhas comuns dos projetores antigos. Algumas das paisagens não eram reconhecidas por todos. Os alto falantes começaram uma narrativa monótona padrão.

– FRANÇA. JAPÃO. CHINA. AUSTRÁLIA. ÍNDIA. …

Os países eram mostrados com imagens capturadas pelas câmeras no momento da mudança brusca da temperatura.

– … ESTIMATIVA: 800 GRAUS NEGATAIVOS. EXPECTATIVA DE ENTIDADE BIOLÓGICA: ZERO.

– Que droga é essa?

A agente no comando colocou o alto falante no mudo enquanto a gravação revelava os cenários.

– Há 50 anos foi previsto que este evento climático que nos mostraram duas coisas. As alterações seriam bruscas e chegaria antes de estarmos preparados. As nações se empenharam, e criaram seu sistema para selecionar os sobreviventes.

– Você quer dizer que todas as pessoas lá em cima estão mortas?

– Digo que todos os seres vivos não sobrevive às condições climáticas atuais. – Amanda.

– Quando poderemos voltar?

– Os pesquisadores ainda não podem responder esta pergunta. Poderá durar gerações. Possivelmente encontrarão conhecidos nas outras estações. Preencham com cuidado as áreas de profissões que possamos  precisar. E de doenças, vícios, e ficha criminal. Não haverá punição para crimes passados, porém haverá pela omissão desses dados. Os novos crimes cometidos aqui serão seriamente tratados, sendo a pena máxima a de morte.

– Não havia pena de morte no nosso país!

– O prefeito de uma estação é a autoridade máxima na mesma, e eu sou a prefeita desta estação. Os vagões serão divididos em três espaços e usados como casas. Terão os bancos como camas também, e mesas. Haverá tanques para roupas nos fundos e fornos a lenha. Um rádio militar para comunicação emergencial ou com outras estações. Os banheiros da estação estão em bom uso.

– Quer fazer fogo no subterrâneo? Morreríamos sufocados!

– O bosque e as algas do rio ajudarão as máquinas a purificarem o ar.

As paredes do outro lado do rio moveram-se em parte. O metal fora levado pela esteira suspensa seguindo o corredor. No outro lado das árvores grandes e troncos mostravam suas folhas tão verdes.

– Para preservar a população de animais pedimos que não entrem no bosque sem um guia. Poderiam perder-se e há insetos, e animais venenosos, selvagens ainda. O equilíbrio no local deve ser mantido. Com a colaboração de todos, todos poderemos sobreviver.

No dia seguinte alguns acordaram cedo, os que não demoraram a dormir. Os que ficaram acordados eram os primeiros a ser atendidos pelas equipes de entrevista, em seguida iam ansiosos ao painel de habitantes do subsolo, na expectativa de encontrar algum conhecido. Gabriela acordou antes do menino que adotara para si e foi ao painel de fotografias que tinham nomes e apelidos embaixo. De lá olhava a todo momento para a criança que deixara adormecida entre tantos colchonetes. Eram tantos os rostos de homens e mulheres que detinha-se em alguns para certificar-se de não conhecer da padaria ou do mercado, ou da banca de revistas. Seus olhos brilharam. Talvez ainda houvesse alguma esperança…

 

/Arctos Astehria

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