Desafio “Sexo” – Quem vai para melhor sorte?

sexofragilIsto é segredo, exceto para Deus, diria Sócrates.

Mas Dimas preferia esculachar. Na mesa de bar, apesar das contrições vistas nos olhos de seus convivas, Dimas continuou esbravejando. Falando impropérios contra as ONGs de minorias e direitos humanos. Defendendo a posição do Deputado-Pastor, o tal que ganhou destaque nas páginas de jornais, nas revistas, nos telejornais. Buscou, é bem verdade, aparecer, mas conquistou seu lugar na vitrine da mídia. Dimas rebatia cada crítica que faziam. Calada, Luana pensava com seus botões: – Só gagueja quando fala manso, é todo tímido e recatado até para tirar a roupa. Qual será o motivo de nunca ser firme comigo, de nunca afirmar seu amor, sua paixão. Por vezes até simula, esconde, retrai-se quando está muito afim, eu vejo, sinto que está, sei que quer, mas ele desvia, desconversa, disfarça, se afasta.

Dimas aumentou o tom. Nas outras mesas, as pessoas entreolharam-se e reprovaram o discurso daquele homem grande, meio gordo, meio forte, cabelos ralos engomados com gel fixador cobrindo as entradas e a calvície monjal. Os óculos se contrapunham ao falatório, era moderno, de titânio e apliques coloridos de couro, formato côncavo, em grande angular a armação quase encostava nas têmporas. Num arremedo impensado falou e todos ouviram: – Quero mais é que estes gays morram!

Silêncio.

De longe alguém arrastou sua cadeira de volta à posição na mesa e disse aos seus, também para ser ouvido: – É louco! Vai acabar apanhando.

Outro mais próximo de Dimas acendeu o pavio: – Mais uma bicha enrustida!

Ao ouvir aquilo Dimas imediatamente levantou-se derrubando a cadeira. Partiu para cima do cara bufando como um touro. – Como é que é, rapaz? Repita se for homem.

– Repito sim…

A turma do deixa disso interveio antes que o cara repetisse.

Seguro pelos amigos Dimas ficou gritando: – Repete, repete, seu *!?#, que eu te mato!

O outro, também contido por dois ou três, gritava de lá: – Bicha! Você é uma bicha enrustida! Vem me matar, desgraçado!

E Luana chorava. Um misto de vergonha e medo. Depois de anos de namoro e noivado, casada há seis meses com Dimas, não o conhecia. Triste conclusão que pouco a pouco ia se construindo em sua mente. Seu coração teimava em mantê-la firme no propósito de continuar com ele, tentar moldá-lo aos poucos, mas cada dia ficava mais evidente que aquele Dimas não era o homem a quem ela amava. E se não era, portanto, o homem a quem ela amava não existia. O que existia era este.

O tempo não era o presente.

Dimas e Luana não estão mais casados. Mas viveram juntos até que a morte os separou. Não foram fiéis um ao outro, todos sabem. O que cada um fez, não cabe a mim dizer. Nem julgar. O fato é que um foi encontrado morto numa lixeira pública em São Paulo, o corpo esquartejado dentro de duas malas, e a outra, presa como principal suspeita foi assassinada dentro da cadeia pública feminina do Bom Pastor por sua amante enciumada.

 

/José Leão

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4 respostas em “Desafio “Sexo” – Quem vai para melhor sorte?

  1. Temos um profissional! Todos os textos que li foram bons, mas este foi excepcional, Bela escrita, com belas palavras.

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