Desafio da Imagem – Christine

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O incessante cortejo diário de casacos, ternos, mochilas, pastas executivas, seguia imperturbado pela larga calçada, cada par de pernas guiando ombros, mãos e cabeças aos seus destinos.

E lá no fundo, escondidos, invisíveis, solitários, olhos que tudo observavam e absorviam. Seu dono, sentado em um canto obscurecido pelas paredes de pedra dos edifícios, sem nome, apenas mais um dos inúmeros sem-teto da cidade. Sem identidade.

Um dia, ele já fizera parte de todo aquele burburinho. Agora, era só mais uma sombra perdida no meio do nada, o nada do qual fazem parte as almas sem futuro do mundo.

Saudoso, cantarola palavras de seu passado, iludindo-se com a possibilidade de, em suas roupas de fantasma e máscara de indigente, uma bela alma ouça suas palavras e sua voz e se encante, como Christine Daaé¹. Ironia que a música que preenchesse seu coração fosse uma música da noite². Pois para ele, nunca era dia. O sol não iluminava sua vida já há muitos anos.

Naquela rotina ingrata, pés passavam o tempo todo ao seu lado, tão perto, mas tão longe. Alcançar qualquer um deles e expor, despejar seus sentimentos e seu coração era impensável.

Havia tantos que ganhavam o sustento ali, naquela mesma calçada, dispensando seu talento como se fossem xícaras de café servidas aos passantes. Mas não ele. Poderiam tirar-lhe tudo, sua casa, seu dinheiro, sua família, amigos, dignidade. Mas ninguém tomaria seu bem mais precioso como se fosse mercadoria barata a merecer apenas alguns poucos trocados.

Sua voz valia muito mais do que isso.

Lembrava-se da máscara que usava no palco. Somente a metade do seu rosto aparecia, a maquiagem pesada parecendo uma segunda pele do lado descoberto.

Agora, era como se a máscara cobrisse todo o seu rosto, nenhuma daquelas pessoas que passavam ali todos os dias saberia dizer quem era o homem escondido por detrás da barba e dos cabelos sujos e emaranhados, atrás dos trapos e da sujeira.

A voz outrora poderosa e brilhante se curvava em suspiros, sussurros tímidos e envergonhados. O que seria de sua alma orgulhosa se descobrissem, ali, naquele beco, o quão fundo havia descido no poço da desgraça?

E continuava a lembrar dos dias de glória com melodias que jamais deixaram sua mente, as letras gravadas dentro de si como se marcadas a ferro.

Em um breve momento de ousadia, soltou a voz um pouco mais do que estava habituado, lembrando com ternura de como segurava nos braços a pequena atriz que interpretava, enlevada, a jovem Daaé, em um momento de sutil romance entre ela e o fantasma.

Viu em sua mente os olhos brilhantes a admirá-lo, o sorriso aberto se abrindo e soltando as notas com a voz de um anjo perto de seus ouvidos; por mais de uma vez imaginou que aquelas doces palavras eram dirigidas a ele.

E, logo depois, a derrocada. A intriga de camarim e as mentiras, provocadas por inveja e ganância pelos holofotes.

Primeiro, perdeu seu trabalho, seu amor, o teatro, a música. Sua imagem, tão arranhada e desgastada que ninguém iria querer seu nome estampado em outro letreiro ou cartaz.

Depois, o dinheiro começou a esvair por entre seus dedos, como areia do tempo. Então, no fim, até as pessoas que diziam que nunca o abandonariam haviam partido.

Quando se deu conta, estava nas ruas, a implorar por ajuda de desconhecidos que passavam por ele como se nada ali houvesse. Como se ele, humano, vivo, com sonhos e desejos igual a qualquer outro, fosse somente mais uma parte da paisagem, algo que não é sequer digno de nota. Como se fosse só mais uma árvore em um parque.

E foi assim, perdido em devaneios e mágoas, que não percebeu que estava cantando em alta voz, derramando todo o seu sentimento e dor nas palavras que cantava, fazendo eco entre as paredes de seu esconderijo.

“Eu queria ensinar o mundo,
Levantar e alcançar o mundo.
Ninguém ouviria,
Somente eu poderia ouvir a música.

E então, uma voz na escuridão
Pareceu gritar – Eu ouço você!
Ouço seus medos
Seus tormentos e suas lágrimas.

Ninguém ouviria,
Ninguém além dela…”³

De olhos fechados, não viu as lágrimas que desciam livres e desimpedidas por um rosto que o observava em admiração e quieta tristeza.

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Mas aquele suspiro… Aquele suspiro estava gravado em sua mente como as letras que cantava. Gravado junto de olhos azuis da cor do céu de outono, o perfume da mais delicada flor e a delicadeza de um pássaro recém-nascido. E da voz de um anjo.

– É você.

E, da mesma forma que um dia partilharam de um vasto e iluminado palco, como se o tempo, os dias e anos jamais tivessem se passado, mais uma vez estava ela, ali. De joelhos no chão, ao seu lado, os cabelos acariciando seu rosto ferido e sofrido, os braços em volta de seu pescoço, as palavras desconexas lhe dizendo que nunca havia sido esquecido, apenas perdido.

Os dois levantaram, ele sem jeito, ela rindo como se houvesse encontrado a felicidade guardada dentro da bolsa.

Agora, os desconhecidos pés se viravam em sua direção. A curiosidade estampava cada par de olhos que observava a cena. As pernas que sempre seguiam em frente, como se ele nunca houvesse estado ali, finalmente paravam por causa dele.

Mas agora não fazia mais diferença.

Um final diferente seria escrito para a ópera da sua vida.

Não seria mais um fantasma.

Sua Christine havia lhe escolhido.

Havia visto através da máscara.

/Nicki Leite

 

 

Referências do texto:

1: Christine Daaé, interesse romântico do personagem principal de “O Fantasma da Ópera”, romance do escritor francês Gastón Leroux. A obra foi imortalizada na Broadway e no cinema, sendo a versão mais recente do ano de 2004, com Gerard Butler no papel do Fantasma e Emmy Rossum, no papel de Christine.

2: A música a qual o texto se refere é “Music of The Night”, uma canção cantada pelo Fantasma para a jovem Christine Daaé, falando de seu amor por ela e a pede para que esqueça o mundo e a vida que ela um dia conheceu para ficar com ele e ajudá-lo a criar a sua música.

3: Versos da música “No One Would Listen”, escrita para uma das cenas do filme de 2004, mas cortada durante a edição final do filme. A melodia acabou sendo utilizada, recebendo letra diferente, para compor a música “Learn To Be Lonely”. Na letra original, o Fantasma pensa em Christine, em como ela foi a única pessoa que o ouviu e prestou atenção nele, enquanto todas as outras pessoas o temiam ou desprezavam.

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