Desafio da Imagem – O Jardim de Monet

josé“A Ponte Japonesa” – Inverno de 1899. As nenúfares da casa de Giverny floresciam. Monet via realizar-se o projeto de dez anos, desde que adquirira a propriedade e contratara uma equipe de jardineiros para montar o cenário daquele que seria seu atelier ao ar livre até os últimos dias de sua vida. Existe a luz, mas o céu não se vê. Os olhos pousam serenos sobre a água. As plantas exóticas brilham em tons de violeta. As sombras sutis da ponte. As flores evitam a sombra. A água reflete o verde ao redor. A ponte tem arco japonês. O velhote, como ele mesmo dizia, queria reproduzir na tela o que sentia ao construir e contemplar seu éden. Seu paraíso pré-adâmico não era figura para homens. Fora feito por homens, mas não era para eles. As flores não eram dali. Foram trazidas por homens, sim. De longe, do Japão, o artista e arquiteto mandou trazer. Também as Íris do oriente próximo, os salgueiros da África setentrional, as rosas holandesas e os agapantos, únicos habitantes locais. Aliás com os moradores de Giverny teve que negociar o curso do Ribeiro RU, represado pelo gênio criador do artista para compor seu lago. O gênio que criara a nova ordem do impressionismo francês transformava-se agora na velhice no gênio criador do expressionismo abstrato. Cada vez mais fechando o quadro mais perto das flores, desfocava-as e dava-lhes um brilho ainda maior.

josé 1Verão de 1924. Monet estava quase cego e recuperava-se de cirurgia quando passou a dedicar-se a suas duas últimas exposições, uma em Petit com uma retrospectiva de toda sua obra, e a maior de todas, em Paris, na Orangerie, dedicada às nenúfares. Esta exposição só foi inaugurada em 1927, meses depois de sua morte. Um dos últimos quadros de Monet, chama-se justamente da mesma forma que um dos mais célebres de seu jardim – “A Ponte Japonesa” (1924).

A ponte está coberta por uma armação de madeira. Na cobertura da ponte foram plantadas glicínias que ao longo dos anos emolduraram a cena. No verão os salgueiros estavam amarelados e as nenúfares já eram poucas. A abstração surge na mente na Monet como a imagem que seus olhos podiam ver. As luzes e cores ainda assim são quentes, contrastam e harmonizam.

O jardim japonês de Monet, sua obra-prima no chão da terra, é a prova viva do poder criativo do homem, efêmero e sensível à senitude, mas as telas de 1899 e 1924 são o testemunho, até hoje de que a arte pura vive muito mais do que os artistas.

 

José Leão

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