Desafio da Imagem – Miscelânea Parisiense

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–  Ah! É claro que um Monet original não poderia faltar!

Bernardo observava a Ponte Japonesa como uma criança que ansiadamente entrava e em uma loja de brinquedos. Seus olhos deslizavam pela pintura admirando todos os tons de verde que pareciam se conciliar: verde musgo, oliva e aspargo aparentavam tornar-se um só. Após alguns demorados minutos de contemplação e de divagação, começou a  busca por Cristina. A moça que o seguia vagarosamente havia desaparecido, mas seu paradeiro seria facilmente encontrado já que o museu era vasto e sem divisões. Caçando com seu irreconhecível olhar encontra a silhueta da mulher, sentada em um dos milhares bancos que se estendiam por todo o estabelecimento.

– Ei, Cristina! O que está fazendo ai?

Bernardo se aproxima rapidamente com um ânimo incontrolável, inversamente  de sua noiva de cabelos compridos. Suas unhas compridas pareciam estar mais interessantes do que o Louvre.

– Que isso? Vamos lá, acabamos de chegar aqui! Só terminar aqui e depois vamos tomar um sol no jardim da Torre. Vamos, Cristina.

– Bernardo… Posso ser sincera?

O homem arregalou seus olhos e assentou com a cabeça.

– Fica aqui, vou ali fora tomar um ar. Você sabe da minha claustrofobia, não?

Sabendo que um ataque claustrofóbico apenas ocorreria em espaços minúsculos, Bernardo fingiu acreditar – mas cedeu. Um beijo rápido selou o recém casamento.

Cristina andou rapidamente com sua mente distraída – e cansada de esperar seu marido historiador ficar observando quadros chatos e esculturas entediantes. Atravessou os corredores com algumas obras egípcias sem dar importância a nenhuma delas, indo em direção à escada rolante, a caminho da tão esperada saída.

A gigantesca fonte frontal expelia uma inacreditável quantidade de água, e a mulher sentiu-se livre respirando o autêntico e puro ar. Caminhou mais um pouco, recusando no meio do percurso um vendedor ambulante de imãs de geladeira, até arranjar um banco para sentar. Havia esquecido como andar com sapatilhas faziam seus pés doerem.

O legítimo inverno parisiense dava lugar a um maravilhoso verão, com direito a protetor solar, óculos escuros e uma aglomeração de pessoas de tamanho incontável.

caduJá sentada, apanha um cigarro de sua bolsa anil e o acendeu. Distraída como de costume, aproveitando cada porção da nicotina, Cristina demorou a perceber o homem que sentou ao seu lado.

– Vouz parlez français, mademoiselle?

– Oi? Desculpa… – Seu raciocínio entendeu que ali, naquela específica cidade, a probabilidade de alguém comunicar-se em português era de uma porcentagem insignificante. – Oh, I’m sorry… Only English. Ok?

Um sorriso brotou do sorriso do homem, típico galanteador francês. Sem precisar de muito esforço, o olhar de Cristina já tinha se fundido ao semblante do indivíduo. Olhos verdes, barba por fazer, roupa de veraneio e os fios louros soltos – que pareciam ter movimento próprio enquanto a ventania edificava o áureo da raiz.

Com certa dificuldade na língua inglesa, soltou algumas palavras interrompidas pelo constrangimento causado pelos lábios entre abertos de Cristina e o olhar pregado no conjunto de masculinidade.

– Well… Can you Hã… Give me a cigarette?

A mulher retira novamente de sua bolsa a carteira de cigarros oferecendo um para o homem.

– This? – Ela mostrou a carteira a chacoalhando euforicamente.

– Oui, oui!

Cristina concedeu o fumo, e prestes a começar uma conversa com o galã, outra voz masculina interrompeu seus pensamentos.

– Ei, Cristina! Vamos para a Torre?

 

Carlos Eduardo Rotta

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