Desafio da Imagem – Quando eu crescer

Mal chego do trabalho e quero descanso. Não dá muito certo… Saio pra trabalhar, volto, saio para estudar… E o único tempo que tenho é no final de semana. Felizmente minha esposa está sempre em casa para a nossa filha. Ela ainda se encanta com o que descobre, eu sou louco por essa princesa. Ela cresce muito rápido.

No outro dia fui com ela para a feira, pela manhã. Uma das minhas raras manhãs de folga, e o Carlinhos, filho do vizinho, deixou os pais na varanda e correu pra minha menininha. Fiquei com muito ciúme. Uma chuva de verão nos pegou em cheio e ela estava encharcada. Ainda assim Carlinhos a cobriu com o guarda chuva e foi com ela até a varanda de nossa casa. Cumprimentei o casal na varanda em frente com um aceno, agradeci a Carlinhos e entramos.

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O cheiro da comida já estava por toda a casa, embora faltasse ainda retirar a mesa do café da manhã. Dei um beijo na minha esposa e ela brigou por ter deixado nossa filha se molhar. Mandou-nos nos secar e logo estávamos prontos para almoçar com ela.

– Papai, posso fazer uma pergunta?

– Todas meu bem.

– Você me ama?

– Sim, claro meu amor.

– Nós dois te amamos. Por que essa pergunta. – Estranhou minha esposa.

– Eu também gosto muito de você, papai. Quando eu crescer você vai casar comigo?

– Meu bem, só podemos casar com uma pessoa. E já sou casado com a mamãe, que também amo.

Ela baixou os olhos. Preocupado eu não sabia o que dizer, e nem minha esposa teve alguma ideia.

– Papai teria que se separar da mamãe para casar com você.

– Ele ama nós duas, meu amor.

– Não quero que o papai deixe a mamãe.

– Eu nunca vou fazer isso. Amo muito as duas.

– Então eu vou casar com o Carlinhos. Ele perguntou, e não é casado.

Ri aliviado. Então era isso, finalmente. Desde quando crianças queriam famílias e responsabilidades de adultos?

– Ele perguntou, é?

– Sim, antes de chegarmos.

– Entendo… Bem, não sou contra se casarem, mas só quando adultos poderão, certo?

Ela concordou e passaram-se os anos. Brincavam juntos, passaram de ano juntos, e natais juntos… Perdi minha esposa e filha 5 anos depois, mas bem, estou melhor do que elas, embora pudesse lhes falar, lhes dizer, lhes abraçar e acalmar… Desde aquele acidente não posso estar com elas para nada, nem para lhes acalmar o choro no meu velório. Mas não trocaria isso pela vida delas.

Minha bebezinha cresce bem, está no meio da faculdade. E minha esposa se empenha no trabalho, e as duas passam o tempo juntas, se divertindo e distraindo. E bom vê-las sorrir…

Mas naquele dia, a casa vazia e o quarto a meia luz…

– Casa comigo!

– Ainda com essa história, Carlos.

– Eu te amo.

– Ama mesmo? Desde os 5 anos?

– Amo mesmo, desde sempre, para sempre.

Minha filha olhou-o como louco, mas cedeu o beijo. Ama mesmo, desde sempre, para sempre. Como ela pudera crescer tão rápido?!

Carlos foi embora em seguida. Será que haveria melhor homem para ela no universo, além de Carlos e eu?

Ele deu prioridade ao trabalho para pagar os estudos, ela aos estudos para um bom trabalho e carreira.

O casamento dos dois foi modesto. O pai de Carlos levou-a ao altar no meu lugar e a mãe chorava demasiado igual minha esposa. Derramavam lágrimas que davam para encher um tanque, minha garotinha era a mais bela de todas, estava segura do que queria, e seu vestido… Parecia uma peça tirada de um encanto, parecia não tocar o chão ao caminhar. O sorriso em seus lábios não poderiam ser retirados. Nunca…

Um ano e meio estiveram casados e percebi seus enjoos. Quis lhe gritar, lhe avisar para que cuidasse a saúde e fosse ao médico. Para que ele lhe desse a notícia. Eu seria avô! Eu teria um neto ou neta! Tão belo ou inteligente como aquela de quem sou pai. A notícia se confirmou, seria uma menina. Outra em minha vida. Outra para me preocupar mais do que meu coração pode suportar.

Nasceu no final de julho, não conheceu minha filha. O acidente a deixara no meio do caminho para casa… Dali fora para o hospital, inconsciente… Queria vê-la novamente, mas não que sofresse. Não, não que sofresse. Não pude ficar ali. Será que Carlos já sabia? Será que ele estava a caminho?

Ele corria entre as pessoas que tumultuavam a calçada. Esquecera de seu carro e de sua carteira. O que podia era ir o quanto antes ao hospital. Não era distante, não poderia ser, mas… A mãe dele o abraçou.

Minha esposa confortou-se apenas quando Carlos passou a morar com ela, mudaram-se para reduzir mais o sofrimento.

Era um bom bairro, uma bela casa e vizinhança. No parque em que iam no verão era possível alimentar os patos de uma ponte curva e verde. Mas não sorriamos com o sorriso de Andrea, nem quando ela passou a engatinhar, andar e a falar… Nada era o mesmo sem sua mãe, como poderia ser?

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Mas ela foi a escola, brincava e ria, tinha amigos. Correndo a frente da avó naquele final de tarde tropeçou e caiu, ralando o joelho. Logo um menino aproximou-se com o pote de sorvete e colocou sobre o machucado.

– Muito obrigada por ajudar a Andrea, Pedrinho. – Disse a vovó.

– Não é nada. Ainda está doendo? – Pedrinho.

– Só um pouco. – Disse a neta.

– Vamos na minha casa para fazer um curativo. – Pedrinho.

– Ah, acho que não é necessário. Ela está bem, não é verdade? – Disse o ciumento papai.

– Eu tenho que cuidar dela. Quando crescer ela vai ser a minha esposa.

– Igual ao que ele me disse, pai.

– Ela é igual a você, minha filha.

 

Arctos Astehria

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