Desafio Doenças – Edden

– 364… – sussurrou.

Poderia ser o tricentésimo sexagésimo quarto dia (e penúltimo) do ano.

Poderia ser qualquer coisa.

Poderia.

Mas não era.

Nada era mais como antes.

O mundo tinha mudado demais.

Para pior.

As pessoas se isolaram, passaram a temer o contato físico. O computador se tornou o meio mais seguro de convivência. À distância. Redes sociais, bate-papos, jogos e até sexo. Tudo virtual. Levado às mais extremas conseqüências. Matrimônios entre usuários e máquinas se tornaram comuns, com a vantagem de nunca haver divórcio registrado até o presente momento. A notícia boa: controle de natalidade e extermínio das Doenças Sexualmente Transmissíveis; a ruim: dependência tecnológica.

Mas o homem (ainda) era um ser social. Quando a solidão batia, batia forte. E não pedia desculpas. Álcool, Anfetamina, Cocaína, Heroína, Crack, Ecstasy, Oxi, Cristal… Todos prometiam o Paraíso. A partir deles, tantas foram as drogas inventadas e reinventadas que, geração após geração, seu consumo tornou-se tão comum quanto algodão doce nos antigos parques de diversões, pipoca nos extintos cinemas 3D ou refrigerante no que, um dia, já se chamou “festa de aniversário”. Foi o Inferno na Terra.

– 364! – pensou, enquanto disparava seu Remington 700, rifle de precisão, companheiro inseparável nesses tempos sombrios.

Alvo abatido. Não apenas pelo tiro. Antes, pelo Edden: “a Salvação, na palma da sua mão”. O slogan prometia. E comprometia. Surgiu como produto milagroso para saciar os quimiodependentes, que já dominavam a maioria das terras conhecidas, mas causou um impacto ainda maior. Tornou-se sua completa (e única) fonte de prazer. Um paraíso químico jamais visto nos cinco continentes. A droga perfeita. Um simples contato viciava. Seu uso constante reduziu a fome, a sede, o sono e qualquer outra necessidade fisiológica. Emagrecia, ensandecia, transfigurava pessoas em seres errantes, protozumbis, vivos, mas sem qualquer referência à sua humanidade pré-existente.

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A praga se espalhou mais rapidamente que a AIDS, mal de um século passado que poderia ser evitado com o uso de um simples preservativo de látex. Edden não precisava mais ser fabricado. Deixou de ser produto, para ser considerado doença. Contagiosa. Pandemia. Podia ser contraído através do suor, saliva e sangue do infectado. Ou seja: era muito importante ficar longe dos “vivos-mortos”, apelido pelo qual suas vítimas passaram a ser conhecidas.

Não havia nada de sobrenatural naquela cena. Eram pessoas. Viciadas em Edden. Vivas, mas submetidas a um grau de intoxicação bioquímica que mais pareciam cadáveres ambulantes. Nada do que foram poderia salvá-los. Nada do que são poderia ser aproveitado. A única opção era exterminá-los. De uma forma segura, à distância, como o velho vício em computadores. E depois, era esperar que a Mãe Natureza fizesse sua parte, extinguisse a toxidade dos corpos, para uma nova colonização.

Alguns poucos sortudos espalhados pelo mundo, aceitaram uma missão suicida. Lutar contra tudo ao seu redor e dizimar a praga. Missão impossível, se calculada a porcentagem de pessoas contaminadas em relação às saudáveis. Mas era a única opção. Era isso… ou sucumbir ao Edden.

Dia após dia, mês a mês, até que os anos se perderam nos calendários, muitos tombaram de ambos os lados. Aquilo parecia não querer terminar. Era melhor que o mundo acabasse de uma vez por todas. Se é que isso já não tinha acontecido e, os poucos sobreviventes, é que insistiam em existir. Não seriam, eles, a verdadeira praga? Sendo, eles, uma minoria, não seria melhor entregar-se ao óbvio? Estavam em guerra. Em breve faltaria água e comida; viriam mais doenças e, por fim, o golpe mortal do último Cavaleiro. Com suas mortes, não haveria mais potenciais viciados de Edden, os antigos usuários morreriam e, com a extinção da raça humana, a Mãe Natureza poderia seguir seu curso. Mesmo assim, a teimosia persistia. E o sobrevivente daquela casa insistia em sobreviver.

– 364. – Disse, enquanto marcava, com uma trêmula faca de caça, a parede de seu quarto, transformado num posto avançado da resistência humana. Foi quando percebeu que não estava sozinho.

A filha pequena, ainda com o ursinho que recebeu da finada mãe, abraçou o pai. Tinha medo. Ele também tinha, mas precisava ser forte. Choravam. Queriam abraçar-se para sempre, com todo o amor possível, mas sabiam que não haveria o amanhã. O tempo acabou para a jovem. Seu corpo tombou inerte, no chão de madeira. Foi melhor assim. Era tarde demais. Seu pai voltou a olhar pela janela, aguardando o inevitável.

O silêncio, agora, era ensurdecedor. Não escutava nem seus pensamentos. Era uma solidão de palavras e atos nunca experimentada. Só lhe restava esperar o próximo alvo.

– 366… – pensou bissextamente. Pela última vez.

Era abater ou ser abatido. Seu mundo, há tempos, já estava perdido.

Guilherme Ramos

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