Desafio Doenças – Laringitis

joseMadrugada. Sono solitário da mãe com seus dois filhos. Abandonada há poucos dias nesta casa no fim do mundo. Ela dorme com os olhos dançando nas órbitas, por baixo das pálpebras cerradas. Sonha com cães a ladrar, incansáveis, atacando seus pés e bainha do vestido. Incômodo tamanho que a desperta. Mas os cães não calam. Agora não são mais cães a ladrar, o som vem do quarto das crianças. A menina dorme agitada, esfregando os olhos, quase acordando com o barulho. O menino está sentado, sonado, tosse com as mãos na boca, a face rubra. Com a chegada da mãe, disfônico, choraminga. A dispneia piora a cada instante. Instinto astuto de mãe, apoia-lhe as costas, abre a janela, molha seus lábios com um pouco d’água. Fica assim de plantão até raiar o dia. O sol encontra o menino cochilando, sentado, cabeça pendendo para o lado ao final de cada esforço para tomar o ar. Ela está de pé na janela, – a quem recorrer? Passa um caçador para a mata. Um rapaz de roupas modestas. Enche-se de coragem e chama o moço. A situação é de urgência. Ele demonstra preocupação. Deixa espingarda e saco na casa, volta para chamar D. Dilene, rezadora, a “enfermeira” do lugar. Aquela senhora de 60 anos, trazendo ervas, vem com boa vontade e fé. Examina o menino e faz arder no fogo uma panela com água e folhas de eucalipto. Molha uma toalha com a água quente e envolve o tronco dele. O vapor da panela posta a sua frente, ele inala naturalmente ao respirar. Mas não respira naturalmente. Arranca a toalha, arranha as costas da mãe, agarra a grade da cama procurando ponto de apoio para respirar. Pouco a pouco fica arroxeado, o corpo a suar frio, parece que definha e desiste. D. Dilene, o caçador e a mãe temem pelo pior e começam a rezar o pai-nosso.

– Filhinho querido, fale com a mamãe… Sua mãezinha está aqui, você vai ficar bom, meu bebezinho. – Ela, de joelhos ao lado da cama, reza e tenta acalmar o menino.

A agonia causa abalos convulsivos que fazem o menino fletir o corpo para tentar um último suspiro a fim de tossir. Afinal vomita algo como um langanho espesso e branco-amarelado, em forma de tubo viscoso. Cai no leito, o sono sobrevém enfim e o domina. A mãe chora a iminente morte do filho, o caçador sai do quarto. D. Dilene aproxima-se e, reexamina João.

Aliviada, assume o próprio ritmo respiratório dele, e vê que é bom.

Lábios rosados, sem estridor, sem tosse, sem susto, o menino está curado antes do meio-dia.

 

José Leão

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Uma resposta em “Desafio Doenças – Laringitis

  1. Este texto é inspirado em Flaubert, Educação Sentimental. Um dos produtos de uma oficina literária que fiz “on line” com Raimundo Carrero. É uma dica para quem está começando – inspirar-se, não copiar.

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