Desafio Doenças – Com licença

Pilhas de relatórios se acumulam na mesa. O serviço tem que continuar. Os ponteiros do relógio seguem e o trabalho não pode parar. Nada para. Passos apressados de um lado para o outro. Os mais diversos sons entrando em conflito e criando uma pequena confusão mental.

Não. Sem distrações. É preciso analisar, carimbar, atender ligações, fazer reuniões, tomar café, vigiar, cobrar recibos, cobrar compromissos, marcar outros, dar satisfações… É preciso estar de pé.

Não funciona. A cabeça roda e lá se vai mais um comprimido. Ao apertar os olhos contra a claridade, lágrimas correm soltas pelo rosto e a dor volta. Um peso na testa não permite a concentração, e como se não conseguisse ficar num lugar só, a “chata” como carinhosamente apelidou, tomava toda a sua cabeça. Sentia o rosto queimar, mas apesar de colocar a mão, não parecia ser febre.

Pegou o primeiro relatório. Ao iniciar a leitura, todas as letras resolveram dançar salsa e mesmo balançando levemente a cabeça, a situação só piorava. Da salsa partiram para um carnaval completo e agora uma lágrima manchou o documento. Fechou e colocou ao lado.

Mãos na cabeça, respiração forçada. Corpo levemente jogado para trás fazendo uma leve inclinação na cadeira que mesmo sendo confortável, não aliviava suas angústias.

Um copo de água. Talvez um café. Não. Ninguém poderia vê-lo naquele estado. Já fazia duas horas e não havia se quer começado o seu trabalho. Tentou mais uma vez. Depois de dois longos parágrafos, começou a pescar. Quase bateu a cabeça sob a mesa. Tinha que tomar cuidado. Mais uma lágrima. Mais uma mancha. Mais um documento ao lado.

janelaLevantou-se. Olhou a janela e a vida seguindo assim como em seu escritório. Ouviu a impressora aquecendo. Viu pessoas apressadas de um lado para o outro na calçada. Pessoas entrando e saindo do seu prédio. Sentou-se novamente. Terceiro relatório. Ao chegar no quinto parágrafo sem se lembrar do que havia lido no anterior deu um pulo com o barulho na porta.

– Com licença senhor. Mais um relatório… Tá tudo bem?

– Ah, sim. Acho que… Esdá dudo mem…

– Seu nariz tá vermelho e o senhor não está respirando direito. Veio trabalhar com gripe de novo?

Dão…

– Senhor, vai pra casa, eu peço pro Roberto conferir os relatórios. Ou prefere que eu ligue para sua esposa vir te buscar?

Dão brecisa Bônica. Já esdou indo…  

 

juhliana_lopes

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