Sentimentos na escrita

Olá meus queridos escritores.

Creio que se vocês estão aqui, é porque amam escrever, e consequentemente, gostam muito de ler.

Todas vez que lemos um bom livro, conseguimos captar cada sentimento dos personagens em uma intensidade muito grande. Na hora que estamos lendo, isso é bem fácil, mas como fazer para escrever expressando esses sentimentos de forma que o leitor consiga captar?

Vim dar uma dica hoje para vocês que utilizo sempre, e que me ajuda muito. Já tentaram escrever quando estão sob influencia de algum sentimento? Exemplo, quando estão muito tristes ou muito nervosos?

Acredito que o melhor jeito para falar sobre um sentimento, é quando estamos sob influência do mesmo.

Sabe aquele dia em que seu chefe grita com você, você perde o ônibus, pega chuva e dá tudo errado, chega em casa e só quer que o mundo acabe? Esse é um excelente momento para reescrever aquela parte da história em que um personagem está com muita raiva. Expresse toda sua raiva nas atitudes do personagem, ou mesmo da descrição desse momento para o personagem. Além de ajudar na expressão de sentimentos no texto, pode aliviar a pressão sobre você.

E isso vale para todos os sentimentos: para quando se esta feliz, triste, entediado, etc.

Esses são momentos em que muitos não escrevem, não querem escrever, e acabam perdendo uma ótima oportunidade de tornar seus textos mais reais, mais intensos.

Creio que muitos já façam isso quando estão com o coração partido, mas podem abranger para todas as outras emoções que temos ao longo da vida.

Anúncios

Desafio dos Seres – Valquíria

aleksFoi num desses dias que coisas estranhas acontecem, estava treinando ombro ou era costa? Não me recordo de muito, lembro de ter visto uma flor  estranha no reflexo do espelho quando me virei pra ver… 
Ela estava lá, loira, com um corpo esculpido por algum artista da Roma antiga. Ela veio deslizando ao aparelho do meu lado e começou a treinar e me olhou de cima em baixo. Deve ter percebido minha cara de panaca e minha falta de atenção no que eu estava fazendo. Deixei ela de lado, precisava de concentração, estava decidido a crescer, não estava contente com minha forma física, queria vencer meus limites, meu parceiro de treino estava me contando algo, mas minha mente viajava no olhar da desconhecida. Depois de meia hora sem me concentrar direito, resolvi ir embora. Ao passar os olhos pelos equipamentos da academia, notei que a desconhecida não estava lá. Deve ter sido fruto da minha imaginação. 
No dia seguinte fui no mesmo horário, treinei pesado, a desconhecida não apareceu. Tudo bem, preciso me focar mais. 

Assim foram semanas, cada dia mais perto de meu objetivo. 
As coisas não estavam indo muito bem, em minha vida,  desistir não era uma opção, saía do trabalho e ia para academia, minha meta era mais importante que o cansaço. 
Dois anos se passaram e nem lembrava mais da existência de tal ser, quando aconteceu. 
Eu avistei uma flor no espelho antes de deitar no equipamento, meu parceiro estava distraído e não segurou o supino com a força necessária,derrubando em cima de meu pescoço, meu fim. 

Logo agora, que estava perto da estética perfeita? Injustiça. 

Uma luz veio em minha direção, a desconhecida estava lá, na frente da academia, trajando uma estranha armadura e montando um cavalo alado, a beleza dela era tamanha que por um segundo não suportei olhar direto, mas era ela,dona de uma beleza comparada a Afrodite. 

Olhei ao meu redor e vi que tentavam reanimar meu corpo, não me desesperei, sábia que era meu fim. 
Caminhei de encontro a desconhecida e ao chegar com uma voz suave ela me disse:
– Odin te espera, nobre guerreiro. 
– Quem é você? Perguntei com a voz, quase em sussurro. 
– Eu sou uma Valquíria, serva de Odin, eu guio os guerreiros mais nobres para Asgard, para se juntar ao exército do grande Odin. – Ela respondeu 
– Mas porque eu? 
– Você mostrou determinação, fé e coragem, Odin te escolheu há tempos, eu vim pessoalmente para ver seu potencial, mas ainda não era a hora. 
– Como ele soube da minha existência? Não sou guerreiro. 
– Corre o sangue mais puro nas suas veias, não subestime os olhos de Odin, Hugin e Munin sempre estão por aí, observando e levando as informações necessárias à ele. Agora chega de conversar, Odin nos espera em Valhalla, e o Ragnarok pode acontecer em breve. 
Eu tinha mais perguntas, mas subi no cavalo e parti em direção a Asgard. 

Hoje batalho de dia com outros guerreiros e à noite bebemos e brindamos com Odin, o Ragnarok não aconteceu ainda, porém esta cada vez mais perto. 

Aleks Durden

Desafio dos Seres – Cruzando a Teia

juhliana1

Havia um vilarejo, muito afastado do centro onde ninguém ia visitar. Apenas os moradores vivam naquele local, pois além de afastado,  não tinha nada para os turistas verem. Um dia, chegou uma nova moradora, muito bonita de cabelos negros e pele alva. Simpática, chamou a atenção de todos pois além da beleza, ninguém simplesmente se mudava para aquela cidade.

O tempo passou e em uma noite extremamente chuvosa e com ventania, um grande executivo percebeu que havia algo errado. Sempre havia feito o mesmo caminho em todos os horários, mas naquela noite parecia diferente. Continuou seu caminho em meio a chuva até chegar no vilarejo. Percebeu o quanto havia se perdido já que nunca havia ouvido falar daquele lugar e logo estava procurando placas com qualquer indicação para voltar a estrada.

De repente, seu carro quebrou em frente a uma casa que estava quase em ruínas. Saiu mesmo na chuva para ver qual era o problema e percebeu que o eixo estava danificado. Deu um chute no carro e gritou qualquer palavrão em meio ao vento. Quando ia voltar ao seu veículo, uma voz lhe chamou atenção.

– Senhor?

– O que é? Ah, me desculpe, nossa. Estou um pouco nervoso.

– Eu entendo. Está chovendo muito, entre, vai pegar um resfriado. – A moça tinha uma expressão muito convidativa e usava um guarda chuva vermelho para se proteger. Ela o guiou até a casa onde estava mais quente e aconchegante.

Lá, tomaram café e comeram bolo e ele pode se distrair um pouco enquanto a chuva caía.

– Então o senhor é do centro?

– Sim. Tenho algumas empresas lá. Inclusive eu estava indo para uma reunião numa cidade próxima mas não sei como acabei me perdendo. Coisa de doido. Sempre fiz o mesmo caminho todos os dias em qualquer horário e de repente venho parar nesse fim de mundo. Não se ofenda mas é que, é estranho pra mim esses acasos que acontecem em horas impróprias.

– Não me ofendi. Eu mesma não sou daqui. Vim de outra cidade distante, estou acostumada com lugares calmos. Mas aqui realmente é um lugar afastado e sem nenhum tipo de distração. Você bebe? A chuva parece que não vai parar tão cedo… Eu tenho um ótimo vinho aqui…

– Eu vou aceitar.

O clima era de descontração e só então ele reparou que ela usava um vestido preto, justo ao corpo que marcava bem as suas curvas. Jurava que ao encontrar com ela, estava usando um vestido leve de verão numa cor clara mas devia ter sido impressão, afinal estava escuro e ele confuso com tudo que havia acontecido. Beberam toda a garrafa de vinho e mais outras bebidas misturadas, logo ele estava mais animado e notava que ela também estava diferente.

– Então… – disse ele olhando profundamente em seus olhos – não sei seu nome…

– Aqui está… – disse ela entregando a ele um cartão.

A. Artisan – Artesanato e trabalhos manuais. E o “A” seria do que?

– Mais tarde você descobre… e o seu?

– Aqui está. – disse ele entregando também um cartão com um sorriso sacana.

Andersen Denurd. Bonito nome… Opa, desculpe – disse ela que caiu no colo do executivo ao entregar o cartão para ele.

Ficaram se olhando por um tempo até que ela se levantou subitamente e seguiu para a sala. Ele a seguiu, totalmente envolvido em sua sedução e a agarrou forte na cintura. Lhe beijou ardentemente e sentiu seu corpo sendo guiado durante o beijo para outro cômodo. Não abriu os olhos para ver onde estava indo, mas sentia que aos poucos ela sucumbia em suas mãos se entregando ao inevitável. Os toques aumentavam, o calor incendiava até que ao tocar no zíper do vestido para abri-lo percebeu que não havia mais zíper e a textura do vestido agora era semelhante a pele macia. Sentiu então uma forte pressão em seu pescoço e seu corpo sendo tirado do chão pela mesma coisa que forçava contra o seu pescoço. Ao abrir os olhos, só se pode ouvir um grito de pavor.

– O que acha meu querido?

A moça agora tinha uma pele cinza e onde estava o vestido havia uma camada escura com uma textura de camurça até a cintura. No lugar de pernas havia um corpo de aranha que a deixavam extremamente maior que uma pessoa normal. Em suas mãos, as unhas eram negras, grandes e aparentemente muito afiadas. Em sua boca, havia presas sedentas por sangue. Notou então que o que fazia pressão em seu pescoço era uma teia e que agora todo o seu corpo estava envolvido num casulo.

– O que é isso?

– Nada meu querido Andersen. Só estou com fome… Preciso me alimentar… Só os insetos não me satisfazem…

– Eu estou sonhando não é?

– Não meu querido Andersen. Lembra do meu nome? A. Artisan… Então. Meu nome é Aracne, e desde que tive minha condenação, eu venho me mudando de lugar em lugar para me alimentar…  A última cidade que eu morei? Digamos que ela ficou vazia demais, mas lá eu usava outros métodos… Ainda sim, acabaram meus recursos então eu vim para cá. Aqui eu posso atrair os estrangeiros e me alimentar sem culpa…

– Você me atraiu até aqui?

– Sim querido. E não se preocupe, ninguém vai sentir a sua falta, afinal ninguém vai saber como você desapareceu mesmo… Agora fique quietinho ai enquanto eu tiro o seu sangue ok? – dizendo isso, uma camada grossa de teia lhe cobriu a boca, deixando-o amordaçado. Já não era possível mexer os braços ou as pernas e ele pode sentir quando uma camada se abriu deixando seu pescoço exposto conforme ela se aproximava.

Na manhã seguinte não havia carro e nem chuva, e a forte tempestade não havia deixado mais do que muitas folhas caídas no chão.

Haviam muitas pessoas na padaria aquela manhã, conversando sobre a tempestade e comentando as notícias da TV.

– Bom dia Sra. Artisan. O de sempre?

– Sim senhor, e mais 10 pães de queijo por favor.

– É pra já.

– O Zé, você viu? – disse um outro senhor se aproximando do balcão. – Toda vez que chove, some alguém importante da cidade. Esses cabras se aproveitam da situação pra fugirem de seus casamentos, essa é a verdade.

– Deve ser mesmo Joaquim. Deve ser mesmo. Mais alguma coisa Sra. Artisan?

– Não, obrigada. Tenham um bom dia.

O dia estava ensolarado e os pássaros cantavam alegremente.

Daqui a quinze dias mais uma chuva. Daqui a quinze dias o filho desse executivo, aos poucos a família inteira…Mais um destino traçado – pensava Artisan enquanto voltava pra casa, até parar em frente a porta. – Ué, mais alguém cruzou a minha teia? Duas famílias então…

juhliana_lopes

Desafio dos Seres – Declínio

lumiarts

 

Simpatizo com a ideia simbólica de Ícaro em sua queda, não considerando o abuso de sua ousadia, não respeitando os limites e caindo no excesso!

Não estaríamos nós, fatalmente um dia, a reviver essa síndrome?

…é na depravação do senso do infinito, que rege segundo eu, a razão de todos os excessos culpados…

Até onde posso ir com meu corpo, com meus sonhos…

Que distancia seria suficiente para contentar-me?

Que ideal devo seguir se não este que esta vivo dentro de mim.

Por mais insensato que possa vos parecer, pois não tivestes a chance de ver o que vi…

Por mais improvável que seja meu sucesso, uma voz me guia e me diz forte, vá…

Sim eu sei, não podes me entender e nem acreditar o quanto estou convicto,

Que não posso me abandonar e me ser infiel…

Devo seguir, apesar de tudo e de todos, que se pudessem me matariam, pois vontade não os falta…

…houve um tempo em que o cordão umbilical do homem tinha a função de ligá-lo a matriz da vida, mas que mesmo assim ainda não seria o suficiente para entretê-lo e integrá-lo… Foram alguns de vontade própria que seguiram viagem, cúmplices de si mesmo, á procurar então campos novos, odores e paisagens, e tentar desfrutar da liberdade de ser do mundo, e chegar mais perto de algumas novas questões…

Por um momento, por uma fração de segundos, podemos fazer a escolha errada e mudar nosso destino, ou ficarmos marcados em nossas vidas.

Quando o príncipe tiver virado sapo,

Que nunca te viu e nem nunca verá,

Que do conto de fadas nada restará,

Pois da mente nasceu, quando o coração morreu,

E a mente com sua ganância suprema,

Terceirizou oportunidades,

Sufoca o coração e o confina em algum lugar,

Suposto ter sido o melhor a ser feito,

O tempo leva em desperdício,

Todo gozo possível, dessa estrada sem volta,

… Ao despertar, pelas janelas, a visão é melancólica e cruel,

As folhas secas cobrem o solo,

O silencio grita forte nos ouvidos,

E a paixão nunca mais bate em nossa porta,

Morremos então ainda vivos,

Arrependidos dos risos de outrora,

Que falavam de tudo,

Menos de Amor…

A falta de antecipação, de visão futurista felicidade de agora, sem considerar suas consequências.

É justamente disso que quero falar, do Declínio e de suas consequências.

Não há caráter crítico da pessoa física, e é claro que qualquer, faz com que pensemos na

semelhança com vossos fatos próprios, será mera COINCIDENCIA!

 …Nós somos todos, vasos quebrados, pedaços reunidos, uns sobre os outros,

Nosso coração e nosso corpo foram profanados em sacrifício de nosso orgulho e nossa arrogância,

Nós traímos a nós mesmos,

Nós nos esquecemos de nós mesmos, por um voo desesperado,

E, em sua queda vertiginosa, e das feridas que a acompanham,

O amor tomará o lugar da amargura,

Ele tomará nosso corpo, nosso coração,

E nós poderemos viver em paz, talvez,

Aceitar nossa derrota e nos perdoar…

 

Tantos são os fatores do Declínio, fatores esses assim “momentâneos”, e educacionais, tudo misturado em um belo coquetel, despudorados por momentos, mas não transformando a pessoa num todo como ruim, apenas nesse momento faltou “presença”.

Depois disso tudo vem o tal do “arrependimento”, e o pior deles, “a culpa”.

O arrependimento e a culpa andam juntos, podendo nos transformar em um trapo, crucificando-nos na falta de perdão de nós mesmos.

Essa nossa existência anda sempre em um fio tão frágil, dando a conclusão seguinte:

O homem esta em declínio constante, ele deve lutar se ele quiser, para se manter estável, e lutar mais ainda para subir…

O Amor é pura inspiração para ele… Ele não é digno desse sentimento que pode por vezes pode ter picos de sucesso, mas tudo isso é tão instável visto sua constituição natural, que manter-se nesse Nirvana é meramente impossível. Logo a natureza lhe possui e ele cai de novo.

 Essa “inspiração” chamada AMOR, nos salva por sua idéia, pela semente abstrata que esta dentro de nós, como uma canção que nos fica martelando na cabeça, sabe-se lá porque, fica cantando e cantando…

O amor é assim, ele chega nos salvando, nos inspirando, nos dando esperança, mas não pode ficar muito tempo em nós, pois somos uma “casa sem teto”, não podemos guarda-lo, muito menos mantê-lo.

Podemos ter atos de amor, isolados e magníficos por sua excelência, mas não há como ser constante.

Toda pessoa visivelmente ruim, será boa em algum momento de sua vida, dará amor e atenção a alguém, atuando o amor em sua constante inconstância…

Toda pessoa visivelmente boa, será um dia para uma determinada pessoa, uma pessoa ruim, atuando assim também a “teoria da inconstância”.

Eis o ponto comum com suas doses pessoais!   A teoria da inconstância, a e inspiração do Amor.

Juntamos tudo isso com a inércia existencial, com a teoria da queda constante, e entendemos os altos e baixos, as surpreendentes guinadas que gente como a gente poderá dar ou para cima ou para baixo.

Não há segredos, é fácil de entender quando aceitamos nossa natureza.

Não é uma questão de sinceridade ou de ausência da mesma.

O “ser” se perde em si, sem querer, sem realmente querer…

Desfruta de armas infalíveis para garantir seu próprio orgulho, mas na verdade ele não sabe nada, nem nunca saberá…

 

Ícaro somos todos nós um dia!

Essa ousadia demasiada, vinda em um momento não oportuno, transgredindo o equilíbrio, e mudando até o rumo das coisas, fugindo da origem natural, resultando assim na mais pura discrepância da realidade, deixando-nos perplexos e indignados, sem compreender de fato na resultante de tudo.

Mas, a arrogância também não seria o pecado de Ícaro?

No abraço eterno em que os anjos nos rodeavam,

Batendo suas asas,

Suspirando seus anseios, em nossos corações,

Que escutavam,

Meio ao deserto,

Que nos deixavam sedentos,

Naquele caminho pródigo,

 A circunstancia cria o álibi,

A comunhão de nossos tropeços,

Fariam de nós os amantes ideais,

 Os anjos continuavam a nos rodear,

Apesar de saberem e verem…

 Davam-nos o suspiro amoroso,

Diante desses corações pueris,

Então,

Tínhamos a vaga visão,

Apesar de tudo,

Do sorriso matinal,

Da alegria enfim,

Do que podia ser,

NOSSA REDENÇÃO…

Eu não vim para falar de anjos, mas eles aparecerão vez ou outra.

Eu não sou amor e ódio, mas parecerá vez ou outra…

Somos visitados, vamos para cima e para baixo, estamos alegres ou tristes, conscientes ou inconscientes, adultos ou crianças, enfim, somos tanta coisa e no final não somos lá, grande coisa.

A inconstância de que falo não esta somente ligada as “visitas” que temos nos influenciando em nossos atos. Nunca quis dizer isso, tanto o é que vou mostrar outra visão, mas que poderá ser mencionada uma nomenclatura fantasiosa!

Levantam de suas sepulturas, confeccionadas com tanto suor e lágrimas,

Pedaços de nós, despedaçados,

Que reencarnam com outra face, mas com a mesma alma,

És tu imortal,

Você me faz ajoelhar com os olhos úmidos,

E me entristecer quando você quer viver…

(lembranças).

Tudo que possui o homem boia num rio silencioso

É tudo o que ele é,

Tudo o que ele vive,

Suas paixões inacabadas, seus adeus eternos,

Pois, minhas lembranças,

Pedaços de mim, e ópio de minha existência,

Farão de você eterna…

Ícaro somos todos nós um dia, e os frutos deste voo arriscado, cada um sabe,

ou caímos, ou planamos, ou despedaçamos, até o próximo voo, talvez…

 

Lumiartes Jean

Desafio dos Seres – Cloto, Láquesis e Átropos

anaUma mulher se contorcia em cólicas, gritava e suava, sentada numa cadeira na sala de espera de um hospital lotado. O líquido da bolsa já havia escorrido entre as pernas, numa mistura de sangue, e as pessoas olhavam a cena toda com um misto de nojo, emoção e inconformidade. Seu marido estava na beira do desespero, implorando ajuda médica. “Todos os médicos estão numa emergência”, disse a atendente. Não adiantou, Luis, de mecânico, virou médico e com a ajuda de duas mulheres fez o parto de sua esposa. Nasceu assim Joana, numa noite chuvosa de 29 de julho. Num canto da sala de espera, uma mulher tricotava, sempre atenta aos detalhes. Era uma moça bonita, de jeans e camiseta, lábios vermelhos, cabelos presos numa trança. Parecia não esboçar nenhuma emoção. Aos pés, tinha uma sacola de bordados  diversos, de vários tamanhos e cores. Joana, a recém-nascida  foi entregue para a mãe, depois dos procedimentos neonatal. A mãe foi internada, amamentou e desmaiou, inconsciente. Foi entubada, corria risco de parada respiratória, a pressão estava nas alturas.  Bernardo ficou na sala de espera, andando de um lado para o outro, entre lágrimas e orações. A moça continuava bordando, mas agora, ao lado, estava com uma mulher, que aparentava ter lá seus 35 anos. Ela estava vendo os bordados que estavam na sacola da mulher que bordava.

– Cadê o manto? Precisamos modificar o manto dele. Muitas coisas vão mudar a partir de hoje…

A mulher pegou um manto verde, e começou a desfazer e refazer. Bernardo apenas olhava aquela cena, com um ar total de dúvidas e muitas perguntas. O que faziam aquelas mulheres bordando dentro de um hospital? Poderia ser que esperavam alguém receber alta, mas achou uma total falta de respeito a frieza diante tais acontecimentos, não que elas fossem obrigadas a se “emocionar”, mas pelo simples fato de ter sido uma cena de dor e desespero. Enquanto todos no recinto demonstravam sua indignação, aquela garota e agora, a mulher junto dela, se mostrava concentrada em seu bordado, como se nada estivesse acontecendo. Mas continuou, andando de um lado para o outro, sempre perguntando da esposa para todo mundo que saia da porta que dava caminho para dentro da ala de internação.

Depois de uma hora esperando, uma enfermeira se aproxima de Bernardo, disse que era para ele ver a esposa. O médico também se aproxima e pede para ele ser forte, pois a esposa estava numa situação entre a vida e a morte. Ele ficou inerte, parado, sem expressão, até ajoelhar-se no chão e cair em desespero. As pessoas da sala de espera o acudiram, colocaram-no numa cadeira, ofereceram-no água e várias palavras, desajeitadas, para dar-lhe esperança. Ele olhou à frente e lá estavam as duas mulheres, encarando-o. Alguns minutos depois, entra uma senhora bem velha, curvada, aparentemente cega. As duas mulheres cedem o lugar do meio para ela. Ela se senta e pega um manto vermelho da sacola. Começou a desfazê-lo, e as linhas de lã começam a cair no chão. Bernardo começou a berrar:

– Qual o problema de vocês? O que vocês fazem aqui? Aqui não é lugar de tricotar, aqui é a porra de um hospital e minha mulher está prestes a morrer. O que vocês fazem? Tricotam para os doentes? Para os médicos, enfermeiras…

– Tricotamos para todos, sem distinções meu senhor. Pra você, sua esposa e sua filha. Não vendemos o que produzimos, apenas fazemos e desfazemos o destino.

Num acesso de raiva, Bernardo pega a sacola com os bordados e atira longe. Começa a chamá-las de malucas. A velha está quase no final no desfazer do manto. Tinham duas colunas para serem desfeitas.

– Acho melhor que vá ver sua esposa Senhor, antes que seja tarde… – disse a velha.

Ele se levantou e foi ver a esposa, depois que se acalmou um pouco. Entrou no quarto, viu sua esposa deitada, mergulhada numa poça de sangue. A enfermeira e o médico entraram e disseram que não havia mais nada a se fazer, pois era a terceira hemorragia e a transfusão de sangue não resolveu o problema. Bernardo segurava a mão dela e 5 minutos depois ela faleceu.

———————————————————————————————————–

As três deusas mitológicas do Destino, também conhecidas como Parcas:

Cloto: tece o fio da vida

Láquesis: Cuida da extensão e caminho. Tece o destino no decorrer da vida

Átropos: Desfaz, corta o fio. Representa a morte.

 

Ana Idris

Desafio dos Seres – O encontro dos sacis e o Curupira

jose3Os índios brasileiros ensinavam seus filhos a respeitarem a floresta e os animais contando histórias de seres mágicos, protetores de plantas e bichos. As crianças cresciam com as histórias na cabeça e criam mesmo que eram verdade. Monteiro Lobato estudou muitas destas lendas e mitos. O pesquisador e escritor criou um Saci-Pererê a partir das histórias que ouviu – o saci de Lobato foi a síntese da miscigenação brasileira – dos índios, o espírito brincalhão e travesso com o objetivo de defender as árvores e animais da floresta contra os predadores humanos; dos portugueses a figura dos trasgos, rápidos e espertos, capazes de distrair as pessoas, esconder coisas e confundir caminhos, surgindo no meio de redemoinhos de vento; dos europeus a carapuça vermelha, mágica, fonte de seus poderes especiais; e dos africanos a cor da pele, o cachimbo e a perna única, com grande habilidade de saltar, como um capoeirista que perdeu uma perna na luta.

Estes sacis brotam nos brotos do bambu e ficam ali por sete anos, saindo depois para viverem por mais setenta e sete anos. Cada floresta, regado ou vale tem o seu saci protetor. Ao morrerem viram cogumelos venenosos encantadores que continuam ajudando a proteger as matas e córregos.

jose2Já o curupira é um ser único, imortal, com aparência de pequeno menino, ou anão, de dentes verdes-esmeralda, olhos e cabelos vermelhos, e pés virados para trás. Desloca-se tão velozmente que protege todas as grandes florestas. Sua magia é provocar ilusões em caçadores e lenhadores de tal forma que eles ficam perdidos na mata, andando em círculos até que as provisões acabam e morrem de fome, enlouquecidos. O curupira vive nas velhas mangueiras e são amigos dos índios, sábios a quem as outras criaturas recorrem para ouvir conselhos.

Os sacis podem ser capturados facilmente jogando-se uma peneira nos redemoinhos e tirando suas carapuças vermelhas da cabeça. Assim imediatamente transmutam-se em crianças indefesas. Já o curupira não pode ser capturado, no máximo, consegue-se livrar-se de seus encantamentos jogando-lhe um novelo de cipó bem amarrado de forma que ele fica horas tentando achar a ponta enquanto a vítima foge.

Uma vez, à sombra de uma frondosa mangueira centenária aconteceu uma reunião inusitada. Dezenas de sacis sem carapuça achegaram ao curupira para perguntarem como recuperar seus chapéus mágicos. O curupira ouviu o relato atentamente enquanto penteava a cabeleireira com os dedos dos pés. Após oferecer mangas-rosa aos seus súditos pelados de cachimbo no canto das bocas entreabertas, começou a falar:

– Meninos, vocês cometeram dois erros. Primeiro, deixaram-se capturar. Segundo, pensam que seus poderes estão nas suas carapuças. Quanto ao primeiro não posso fazer nada a não ser dizer que sejam mais espertos da próxima vez. Os homens são muito mais astutos do que parecem ser. Agora, quanto ao segundo erro, preciso lhes dizer, esta coisa de poderes mágicos em chapéus vermelhos é coisa de gringo, invencionice do povo que não sabe de nada. O poder de vocês está no espírito da mata. E o espírito da mata sou eu.

– Mas por que então desde que perdemos o chapéu, não conseguimos mais enganar ninguém? – Perguntou um sacizinho invocado que estava lá atrás de todos.

O Curupira desceu da mangueira e foi andando em sua direção, abrindo caminho entre os sacis assustados. Encarou-o nos olhos e disse:

– Você ouviu o que eu disse? Eu sou o espírito que lhes dá poder. Se não conseguem maisfazer travessuras é porque eu queria encontrar vocês hoje. Eu que chamei vocês aqui. Entendeu?

– Sim, senhor. E o senhor vai fazer o que com nós?

– Vou mostrar que vocês não precisam do chapéu vermelho ridículo. Sigam-me!

E o curupira partiu veloz. Tão rápido que os sacis ficaram parados sem saber para onde ir. O invocado então apontou para as marcas dos pés no chão e correu para o lado oposto. Pegou carona num redemoinho. E sumiu. Os outros ficaram rindo dele. Ficaram rindo tanto que deitaram no chão. Dormiram. Os cachimbos caíram. Quando acordaram estavam amarrados numa rede e pendurados na mangueira. Curupira e o invocado rindo deles. Curupira pegou os cachimbos no chão. Mostrou a eles.

– E agora, seus pestinhas? Sem chapéu e sem cachimbo. Vou entregar vocês para um zoológico? Ou um circo?

Diante de um uníssono grito de “Não!”, perguntou ao invocado o que fazer, e o saci orgulhoso de si, pediu mais uma chance para os irmãos. Curupira aceitou e abriu a rede.

– Pois vou fazer o seguinte. O invocado e eu vamos esconder seus cachimbos. Quem encontrar depois que contarmos até três e já! poderá voltar para a mata e brincar de ser Saci-Pererê.

E assim se fez. Passaram-se horas até que todos os sacis voltaram à mangueira com os cachimbos nas mãos. Nas mãos. As bocas caladas. Na mente uma só pergunta – cadê o meu? Quem está com o meu?

– O teste final é esse. Quero cada um com seu cachimbo na boca até eu contar até trinta. Um, dois, três… trinta!

E todos os sacis estavam rindo com cachimbos na boca. Sem briga nem discussão. Liberados para voltar a brincar.

 

José Leão

 

Desafio dos Seres – Crônica do Não Retorno

arctos

 

Flor, ouça esta boca dizer.

Nasci sobre joelhos e sorri.

Meu mar te escuto como fria brisa…

Por que fala assim para mim?

Sua voz é fraca, me olhai.

Olhai-me nos olhos, não me tema.

Não interrompa, minha flor.

Sobre as colinas e montes e montanhas eu percorri.

De meu coração estive distante.

Em loucuras escuras e vazias e desertas, estive só.

Sem o sol, afundando sempre.

Os passos na lama eram de desespero,

Então estava parada bem ali,

Espelho d’minha alma

Tinha o sol,

E no cabelo estrelas…

O universo no teu olhar trouxe esperança a um coração.

Os seus lábios o descanso para um ébrio de paixão.

Os braços que levam os filhos meus…

Não recordo de ser vendido à espada,

Não recordo o amor às batalhas,

Não sei de minhas lágrimas que tirei de vidas,

Ou do que aguarda na finda partida…

Sempre te levarei como o mais precioso de mim!

Lembrarei de que fora gentil até fim.

Um horizonte de ramos e de flores,

No coração que me zelou…

Que arrancou do meu peito mil angústias,

E aliviou o espírito empobrecido.

Seu riso, sua dança

Acalmaram meu coração,

E sem ferir conquistou minha razão.

Graças a você pude ser águia a voar.

Levou-me acima do que pude desejar.

Mergulhei no infinito,

Mudei meu destino.

Só peço que não chore por eu não voltar.

O que lamento é lhe deixar…

 

Arctos Astheria