Desafio dos Seres – O encontro dos sacis e o Curupira

jose3Os índios brasileiros ensinavam seus filhos a respeitarem a floresta e os animais contando histórias de seres mágicos, protetores de plantas e bichos. As crianças cresciam com as histórias na cabeça e criam mesmo que eram verdade. Monteiro Lobato estudou muitas destas lendas e mitos. O pesquisador e escritor criou um Saci-Pererê a partir das histórias que ouviu – o saci de Lobato foi a síntese da miscigenação brasileira – dos índios, o espírito brincalhão e travesso com o objetivo de defender as árvores e animais da floresta contra os predadores humanos; dos portugueses a figura dos trasgos, rápidos e espertos, capazes de distrair as pessoas, esconder coisas e confundir caminhos, surgindo no meio de redemoinhos de vento; dos europeus a carapuça vermelha, mágica, fonte de seus poderes especiais; e dos africanos a cor da pele, o cachimbo e a perna única, com grande habilidade de saltar, como um capoeirista que perdeu uma perna na luta.

Estes sacis brotam nos brotos do bambu e ficam ali por sete anos, saindo depois para viverem por mais setenta e sete anos. Cada floresta, regado ou vale tem o seu saci protetor. Ao morrerem viram cogumelos venenosos encantadores que continuam ajudando a proteger as matas e córregos.

jose2Já o curupira é um ser único, imortal, com aparência de pequeno menino, ou anão, de dentes verdes-esmeralda, olhos e cabelos vermelhos, e pés virados para trás. Desloca-se tão velozmente que protege todas as grandes florestas. Sua magia é provocar ilusões em caçadores e lenhadores de tal forma que eles ficam perdidos na mata, andando em círculos até que as provisões acabam e morrem de fome, enlouquecidos. O curupira vive nas velhas mangueiras e são amigos dos índios, sábios a quem as outras criaturas recorrem para ouvir conselhos.

Os sacis podem ser capturados facilmente jogando-se uma peneira nos redemoinhos e tirando suas carapuças vermelhas da cabeça. Assim imediatamente transmutam-se em crianças indefesas. Já o curupira não pode ser capturado, no máximo, consegue-se livrar-se de seus encantamentos jogando-lhe um novelo de cipó bem amarrado de forma que ele fica horas tentando achar a ponta enquanto a vítima foge.

Uma vez, à sombra de uma frondosa mangueira centenária aconteceu uma reunião inusitada. Dezenas de sacis sem carapuça achegaram ao curupira para perguntarem como recuperar seus chapéus mágicos. O curupira ouviu o relato atentamente enquanto penteava a cabeleireira com os dedos dos pés. Após oferecer mangas-rosa aos seus súditos pelados de cachimbo no canto das bocas entreabertas, começou a falar:

– Meninos, vocês cometeram dois erros. Primeiro, deixaram-se capturar. Segundo, pensam que seus poderes estão nas suas carapuças. Quanto ao primeiro não posso fazer nada a não ser dizer que sejam mais espertos da próxima vez. Os homens são muito mais astutos do que parecem ser. Agora, quanto ao segundo erro, preciso lhes dizer, esta coisa de poderes mágicos em chapéus vermelhos é coisa de gringo, invencionice do povo que não sabe de nada. O poder de vocês está no espírito da mata. E o espírito da mata sou eu.

– Mas por que então desde que perdemos o chapéu, não conseguimos mais enganar ninguém? – Perguntou um sacizinho invocado que estava lá atrás de todos.

O Curupira desceu da mangueira e foi andando em sua direção, abrindo caminho entre os sacis assustados. Encarou-o nos olhos e disse:

– Você ouviu o que eu disse? Eu sou o espírito que lhes dá poder. Se não conseguem maisfazer travessuras é porque eu queria encontrar vocês hoje. Eu que chamei vocês aqui. Entendeu?

– Sim, senhor. E o senhor vai fazer o que com nós?

– Vou mostrar que vocês não precisam do chapéu vermelho ridículo. Sigam-me!

E o curupira partiu veloz. Tão rápido que os sacis ficaram parados sem saber para onde ir. O invocado então apontou para as marcas dos pés no chão e correu para o lado oposto. Pegou carona num redemoinho. E sumiu. Os outros ficaram rindo dele. Ficaram rindo tanto que deitaram no chão. Dormiram. Os cachimbos caíram. Quando acordaram estavam amarrados numa rede e pendurados na mangueira. Curupira e o invocado rindo deles. Curupira pegou os cachimbos no chão. Mostrou a eles.

– E agora, seus pestinhas? Sem chapéu e sem cachimbo. Vou entregar vocês para um zoológico? Ou um circo?

Diante de um uníssono grito de “Não!”, perguntou ao invocado o que fazer, e o saci orgulhoso de si, pediu mais uma chance para os irmãos. Curupira aceitou e abriu a rede.

– Pois vou fazer o seguinte. O invocado e eu vamos esconder seus cachimbos. Quem encontrar depois que contarmos até três e já! poderá voltar para a mata e brincar de ser Saci-Pererê.

E assim se fez. Passaram-se horas até que todos os sacis voltaram à mangueira com os cachimbos nas mãos. Nas mãos. As bocas caladas. Na mente uma só pergunta – cadê o meu? Quem está com o meu?

– O teste final é esse. Quero cada um com seu cachimbo na boca até eu contar até trinta. Um, dois, três… trinta!

E todos os sacis estavam rindo com cachimbos na boca. Sem briga nem discussão. Liberados para voltar a brincar.

 

José Leão

 

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