Desafio dos Seres – Cruzando a Teia

juhliana1

Havia um vilarejo, muito afastado do centro onde ninguém ia visitar. Apenas os moradores vivam naquele local, pois além de afastado,  não tinha nada para os turistas verem. Um dia, chegou uma nova moradora, muito bonita de cabelos negros e pele alva. Simpática, chamou a atenção de todos pois além da beleza, ninguém simplesmente se mudava para aquela cidade.

O tempo passou e em uma noite extremamente chuvosa e com ventania, um grande executivo percebeu que havia algo errado. Sempre havia feito o mesmo caminho em todos os horários, mas naquela noite parecia diferente. Continuou seu caminho em meio a chuva até chegar no vilarejo. Percebeu o quanto havia se perdido já que nunca havia ouvido falar daquele lugar e logo estava procurando placas com qualquer indicação para voltar a estrada.

De repente, seu carro quebrou em frente a uma casa que estava quase em ruínas. Saiu mesmo na chuva para ver qual era o problema e percebeu que o eixo estava danificado. Deu um chute no carro e gritou qualquer palavrão em meio ao vento. Quando ia voltar ao seu veículo, uma voz lhe chamou atenção.

– Senhor?

– O que é? Ah, me desculpe, nossa. Estou um pouco nervoso.

– Eu entendo. Está chovendo muito, entre, vai pegar um resfriado. – A moça tinha uma expressão muito convidativa e usava um guarda chuva vermelho para se proteger. Ela o guiou até a casa onde estava mais quente e aconchegante.

Lá, tomaram café e comeram bolo e ele pode se distrair um pouco enquanto a chuva caía.

– Então o senhor é do centro?

– Sim. Tenho algumas empresas lá. Inclusive eu estava indo para uma reunião numa cidade próxima mas não sei como acabei me perdendo. Coisa de doido. Sempre fiz o mesmo caminho todos os dias em qualquer horário e de repente venho parar nesse fim de mundo. Não se ofenda mas é que, é estranho pra mim esses acasos que acontecem em horas impróprias.

– Não me ofendi. Eu mesma não sou daqui. Vim de outra cidade distante, estou acostumada com lugares calmos. Mas aqui realmente é um lugar afastado e sem nenhum tipo de distração. Você bebe? A chuva parece que não vai parar tão cedo… Eu tenho um ótimo vinho aqui…

– Eu vou aceitar.

O clima era de descontração e só então ele reparou que ela usava um vestido preto, justo ao corpo que marcava bem as suas curvas. Jurava que ao encontrar com ela, estava usando um vestido leve de verão numa cor clara mas devia ter sido impressão, afinal estava escuro e ele confuso com tudo que havia acontecido. Beberam toda a garrafa de vinho e mais outras bebidas misturadas, logo ele estava mais animado e notava que ela também estava diferente.

– Então… – disse ele olhando profundamente em seus olhos – não sei seu nome…

– Aqui está… – disse ela entregando a ele um cartão.

A. Artisan – Artesanato e trabalhos manuais. E o “A” seria do que?

– Mais tarde você descobre… e o seu?

– Aqui está. – disse ele entregando também um cartão com um sorriso sacana.

Andersen Denurd. Bonito nome… Opa, desculpe – disse ela que caiu no colo do executivo ao entregar o cartão para ele.

Ficaram se olhando por um tempo até que ela se levantou subitamente e seguiu para a sala. Ele a seguiu, totalmente envolvido em sua sedução e a agarrou forte na cintura. Lhe beijou ardentemente e sentiu seu corpo sendo guiado durante o beijo para outro cômodo. Não abriu os olhos para ver onde estava indo, mas sentia que aos poucos ela sucumbia em suas mãos se entregando ao inevitável. Os toques aumentavam, o calor incendiava até que ao tocar no zíper do vestido para abri-lo percebeu que não havia mais zíper e a textura do vestido agora era semelhante a pele macia. Sentiu então uma forte pressão em seu pescoço e seu corpo sendo tirado do chão pela mesma coisa que forçava contra o seu pescoço. Ao abrir os olhos, só se pode ouvir um grito de pavor.

– O que acha meu querido?

A moça agora tinha uma pele cinza e onde estava o vestido havia uma camada escura com uma textura de camurça até a cintura. No lugar de pernas havia um corpo de aranha que a deixavam extremamente maior que uma pessoa normal. Em suas mãos, as unhas eram negras, grandes e aparentemente muito afiadas. Em sua boca, havia presas sedentas por sangue. Notou então que o que fazia pressão em seu pescoço era uma teia e que agora todo o seu corpo estava envolvido num casulo.

– O que é isso?

– Nada meu querido Andersen. Só estou com fome… Preciso me alimentar… Só os insetos não me satisfazem…

– Eu estou sonhando não é?

– Não meu querido Andersen. Lembra do meu nome? A. Artisan… Então. Meu nome é Aracne, e desde que tive minha condenação, eu venho me mudando de lugar em lugar para me alimentar…  A última cidade que eu morei? Digamos que ela ficou vazia demais, mas lá eu usava outros métodos… Ainda sim, acabaram meus recursos então eu vim para cá. Aqui eu posso atrair os estrangeiros e me alimentar sem culpa…

– Você me atraiu até aqui?

– Sim querido. E não se preocupe, ninguém vai sentir a sua falta, afinal ninguém vai saber como você desapareceu mesmo… Agora fique quietinho ai enquanto eu tiro o seu sangue ok? – dizendo isso, uma camada grossa de teia lhe cobriu a boca, deixando-o amordaçado. Já não era possível mexer os braços ou as pernas e ele pode sentir quando uma camada se abriu deixando seu pescoço exposto conforme ela se aproximava.

Na manhã seguinte não havia carro e nem chuva, e a forte tempestade não havia deixado mais do que muitas folhas caídas no chão.

Haviam muitas pessoas na padaria aquela manhã, conversando sobre a tempestade e comentando as notícias da TV.

– Bom dia Sra. Artisan. O de sempre?

– Sim senhor, e mais 10 pães de queijo por favor.

– É pra já.

– O Zé, você viu? – disse um outro senhor se aproximando do balcão. – Toda vez que chove, some alguém importante da cidade. Esses cabras se aproveitam da situação pra fugirem de seus casamentos, essa é a verdade.

– Deve ser mesmo Joaquim. Deve ser mesmo. Mais alguma coisa Sra. Artisan?

– Não, obrigada. Tenham um bom dia.

O dia estava ensolarado e os pássaros cantavam alegremente.

Daqui a quinze dias mais uma chuva. Daqui a quinze dias o filho desse executivo, aos poucos a família inteira…Mais um destino traçado – pensava Artisan enquanto voltava pra casa, até parar em frente a porta. – Ué, mais alguém cruzou a minha teia? Duas famílias então…

juhliana_lopes

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