Desafio Relâmpago (Fantasia) – Um convite à Nibiru (#2)

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(…)

Neftis se via parada no acostamento de uma ampla avenida, onde o piso era como mármore negro polido. Havia um frenético fluxo de veículos de transporte, dos quais poucos tocavam o chão lustroso e a maioria simplesmente planava. A moça olhava para os lados de maneira impressionada, notando que, tanto a estrada como a cidade, pareciam não ter fim. Em alguns pontos, havia hologramas, alguns, aparentemente, comerciais, mas outros sinalizavam coisas numa escrita desconhecida. No céu sobre a cidade iluminada, gigantescos navios dourados flutuavam com absoluta elegância. Torres pareciam tocar o firmamento de tão altas, grandes antenas e edificações piramidais com símbolos enigmáticos gravados em suas fachadas. Havia muita iluminação, por todas as partes se via fileiras de postes, lâmpadas por todos os lados, era tudo incrivelmente maravilhoso, a cidade parecia ter emergido de um fantástico livro de ficção, onde a humanidade tivesse atingido um grau de intelectualidade um uma proporção infinita! Neftis se perguntava onde estava. Que cidade seria aquela que cintilava diante de si? Tudo parecia projeção de um sonho do qual ela não gostaria de acordar nunca mais.

Ela deu seu primeiro passo em direção à cidade iluminada. Seus pés tocaram o chão liso e frio da grande avenida. Os veículos em alta velocidade frearam subitamente de forma cadenciada e organizada. De repente, uma faixa de neon azul desenhou-se em direção ao outro lado e Neftis fora carregada por ela como se estivesse sobre uma esteira de luz.

Havia uma figura misteriosa do outro lado que parecia aguardar a jovem. Enquanto era conduzida pela esteira “mágica”, Neftis forçou a visão a fim de identificar o indivíduo. Parecia ser um homem. No entanto, a moça supunha fortemente que não se tratava de um humano, pois tinha certeza que estava em outro planeta. A esteira parou diante do ser. Ele era alto, quase três metros. A criatura era bela. Sua cabeleira lisa era tomada por um preto do qual reluzia um esplendoroso azulado. Os olhos eram grandes e de cores escarlates, a pele era como cobre. Rosto fino, igualmente nariz e boca. Estranhos discos dourados adornavam as orelhas do ser celestial. Ele trajava uma túnica branca, mas o que de fato atraíra mais a atenção de Neftis, fora o grosso cinto de um metal lustroso e reluzente que se prendia ao corpo do enigmático ser. De alguma forma, Neftis sabia que aquilo se tratava de uma poderosa arma. E de fato era, pois ali havia uma poderosa armadura comprimida que vestiria a criatura em poucos segundos, caso ordenasse.

A criatura estendeu a mão para Neftis que retribuiu o gesto. O alto ser a levou para perto de seu corpo. Logo, a esteira luminosa desaparecera liberando o transito que voltara a fluir. Um círculo de neon desenhou-se sob os dois indivíduos e um tubo de cristal desceu sobre eles os encapsulando. Neftis sentira um frio no estômago.

– Não tema. – Uma voz masculina ecoou na mente de Neftis a fazendo questionar de onde o som viera.

A criatura olhava para a humana como se seus grandes olhos estivessem mergulhados profundamente em seu íntimo. Ele havia reconfortado a moça por meio de telepatia. Neftis tentou não pensar em nada com receio de que o estranho a estivesse investigando mentalmente. Ele continuou a encarar profundamente a jovem.

– Você nasceu em meio à destruição e ao caos, mas não será nele que perecerá. – Mentalizou ele novamente, confirmando a ideia de que Neftis estaria sendo investigada. – Você foi escolhida para receber os elementos divinos. O Imperador-deus a concede a vida eterna e o poder celestial do Metalium em troca de sua devoção.

Neftis não compreendia o que significava aquilo tudo. Enquanto isso, o tubo de cristal os suspendia nas alturas sobre a colossal cidade.

– Eu não entendo! – exclamou Neftis quase desesperada. – Quem é você? Que lugar é esse? Escolhida? Vida eterna? Poderes celestiais? Eu não entendo!!!

Os olhos negros se abriram. Pupilas contraídas e grande quantidade de suor sobre a pele judiada. Neftis respirava rápido, e assustada por conta do incrivelmente real sonho. Ainda deitada sentira as mãos e pernas trêmulas. O que foi aquilo? Questionou em pensamento. Virou-se para o teto e lambeu os lábios ulcerados. Milagrosamente chovia naquele início de manhã. A água penetrara as fissuras no teto. Neftis abriu a boca e esperou a gota precipitar-se. Refletia profundamente sobre o sonho e sobre a vida que levava naquele mundo de caos. Ainda com a boca aberta, fechou os olhos querendo visualizar novamente a cidade cintilante.

O pingo d’água se precipitou em sua boca espalhando-se pela língua porosa. A cidade estava diante de sua imaginação. As luas, as estrelas, o clima agradável, o belo sujeito que conversava com ela em pensamento…

Dedos tocaram seus lábios. Neftis manteve seus olhos fechados. Lambeu novamente os lábios, sentiu-os macios dessa vez, sem feridas e úmidos. Sentiu os dedos adentrarem sua boca. Uma estranha e agradável sensação tomava conta de seu corpo e sua mente. Havia alguém ali, no entanto, Neftis pouco importava-se se era ou não um perigo.

– Abra os olhos. – disse a voz suave. Neftis os abriu.

– Estou sonhando? – a moça perguntou.

Era o mesmo ser que a jovem havia encontrado em seu sonho. Porém, agora trajava uma brilhante armadura dourada proveniente do estranho cinturão preso ao seu corpo. Havia muito calor e um doce aroma de rosáceas, como em noites de primavera. Neftis sentia algo adentrar seu corpo, algo prazeroso que a fazia gemer e suspirar, uma sensação inédita a ela.

– Venha para Nibiru. – disse a criatura de armadura.

– O que é Nibiru? – Neftis perguntou em transe.

– A morada dos deuses. – o estranho respondeu pegando a jovem nos braços.

– Deuses? Eles não existem. – ela desdenhou com sua voz embriagada.

– Não somos como imagina. Somos imperfeitos, quase como vocês, humanos. Todavia, num passado além de qualquer distância, fomos agraciados com ferramentas das quais nos tornam quase perfeitos. Com tais ferramentas, somos imunes à pestilências, somos capazes de destruir o solo com um simples golpe, podemos gerar energia nas palmas de nossas mãos e com ela, romper qualquer matéria, nós, deuses, com nossos elementos divinos, vivemos por toda a eternidade, testemunhamos cada passo do universo em direção à evolução, somos donos de cada ciência que puder imaginar, somos donos de sua existência, humanos! Eu a ofereço a vida eterna em Nibiru, ou a morte nesse grande vale de terror que se tornou a Terra.

Neftis abrira os olhos. Deu-se conta de que tudo aquilo era mesmo real. Olhava fundo nos grandes olhos escarlates do ser celestial, sua mão o tocava o rosto. Era quente como a rocha exposta ao sol do meio-dia.

– Eu quero o poder dos deuses. – ela disse, finalmente.

– Durma, então. – e foi o que houve. Neftis simplesmente desmaiou ao comando de voz do ser. – Acordará em Nibiru, berço dos deuses, lar dos Anunnaki. E, eu, Shamash, estarei contigo e serei seu guia.

Um plasma azulado abduziu Shamash, a criatura celestial junto de Neftis, adormecida em seus braços. Ambos foram levados ao interior da grande nave chamejante que flutuava sobre o abrigo em ruínas e transportados ao infinito, diretamente para Nibiru, morada dos deuses.

Fim.

 

Eric Ribeiro

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Um convite à Nibiru (#1)

Uma descomunal desolação pairava por toda a face da Terra. O ar era espesso, de modo a dificultar a respiração dos seres viventes. Por toda parte existiam ruínas, velhas carcaças de veículos abandonados e carbonizados, árvores derrubadas e colossais pilhas de restos humanos. O céu cinzento vez ou outra abria pequenas frestas fazendo com que os raios do sol as penetrassem de forma tímida.

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Em uma casa prestes a desmoronar por completo, uma jovem chamada Neftis. Mesmo em condições de extrema precariedade, ainda preservava nos rosto e corpo sua beleza quase divina. Os cabelos pretos e ondulados, os olhos igualmente escuros com expressões de domínio, as sobrancelhas cheias, assim como os lábios, e a pele pálida de aspecto surrado, sujo… A água era escassa, portanto, a garota se privava do luxo de um banho, exceto pela necessidade de higienizar as regiões íntimas de seu belo corpo.

Neftis era uma mulher alta, quase um metro e oitenta, e de idade estimada entre vinte e três e vinte e cinco anos. Não tinha ninguém. Nascera em meio à guerra, fora criada em meio a ela. Treinada a sobreviver e mais nada. Não conhecera o próprio pai, pois este morrera antes de sua mãe a dar à luz. A mãe morrera quando tinha poucos meses de vida. Então, Neftis fora adotada pelos tios, até a sina destes se cumprir. A, ainda criança, fora passada a uma nova família, cuja hora chegara quando Neftis entrava na puberdade. Todos de sua família foram infectados com o vírus que assolou o mundo, além da guerra; chamavam o vírus de “A Maldição do Faraó”. Misteriosamente, Neftis era imune ao vírus. Desde então, passou a vagar sozinha pelo mundo, sem jamais ter encontrado outras pessoas ainda vivas. Havia se passado alguns anos desde o fim da guerra.

Neftis dormia em seu abrigo. A noite era fresca e carregada de fracas correntes de vento que deixava um odor de queimado no ar. Todavia, o ar noturno era mais agradável do que o ar diurno quente e abafado. A jovem sempre dormia embrulhada em seu velho poncho, presente de um errante soldado desesperançoso e sem nome, que carregava em sua farda um número do qual não se recorda, era uma criança ainda naquela época. Preferiria dormir pelos cantos das paredes onde havia uma coluna de sustentação, caso a edificação viesse a ruir.

Os lábios entreabertos respiravam com serenidade, calma, como se o fim do mundo fosse uma simples ilusão projetada por sua cabeça. Sonhos inundavam seu inconsciente todas as noites. Neftis sabia de alguma forma que não pertencia àquele mundo de trevas. Nascera em meio ao caos, mas era convicta de que não morreria nele.

Enxergava sobre sua cabeça um céu vislumbrante, mergulhado em caprichos; eram quatro imensas luas, sendo duas delas dispostas no longínquo horizonte ao norte e as outras duas um pouco mais acima e nordeste. Não havia nuvens, somente o impecavelmente límpido céu. As estrelas luziam como ofuscantes lamparinas de prata, pequenos pontos chamejantes destacados sobre o imenso e profundo vazio. Eram constelações jamais vistas por seres humanos. O visual era tão limpo que todo o universo parecia estar a um braço de distância apenas. Neftis virou-se para o sul, onde viu uma porção de “pequenos” planetas em consideráveis distâncias uns dos outros. Eram, pelo menos, dez, sendo alguns muito semelhantes a Terra, enquanto outros refletiam uma superfície quase escarlate devido o sol marrom refugiado no oriente. E sobre o ponto onde estava a jovem, exatamente no centro do firmamento, uma incessante correnteza de energia eletromagnética de um verde esmeralda, algo muito semelhante à magnífica aurora boreal.

Era tudo incrivelmente belo e fantástico. O ar era puro e a brisa refrescante. Neftis voltou seus olhos enfeitiçados para o chão. Pisava sobre um solo rochoso de cor grafite. E havia brilho naquelas rochas, pequeninos pontos brilhantes, como se houvessem centenas de milhões de minúsculos diamantes incrustados sobre elas. Neftis notou, então, que havia um caminho trilhado em sua frente. Sobre a trilha rochosa, pequenas lamparinas a iluminavam como pontos guiam para quem por ventura passasse por ali.

Neftis se deu conta que estava cercada por um estranho deserto enquanto caminhava. Deserto de rochas escuras e brilhantes, no entanto, havia também populações de estranhas vegetações em vários pontos do imenso planalto, seres dos quais jamais existiram na Terra.

Mais três passos. À sua frente, seu próprio reflexo, que não via havia muito tempo. Neftis se olhou dos pés à cabeça. Mergulhada em meio à noite daquela paisagem exótica e sob as luzes das estrelas e das luas, a jovem Neftis admirou-se com ela mesma por um longo período. Encarou-se. Abriu a boca projetando a língua para fora. Exibiu os dentes e em seguida sorriu envergonhada. Uma tímida lágrima escorreu sobre seu rosto sujo. A garota estendeu a mão e tocou o reflexo. A imagem se distorceu trêmula devida pequenas ondas se formarem, como se a superfície de um pacato lago tivesse suas águas perturbadas por algo.

Com um pequeno susto, Neftis tirou rapidamente a mão do espelho. A projeção voltou ao normal e a moça curiosa quis tocar novamente a substância. Sentira seus dedos submergirem no aparente líquido. Ela desencostou e viu que sua pele estava seca. Repetiu o processo, desta vez, indo mais além. Era fresco como a água, porém, seco como a rocha. Neftis sentira que sua mão alcançara o outro lado, havia uma leve corrente de vento. Destemida, mergulhou no desconhecido. Quis saber a todo custo o que havia além do “espelho d’água”.

Sentira o rosto emergir. Com os olhos ainda fechados, preferiu o reconhecimento auditivo antes de mais nada. Percebeu que não havia mais serenidade. Ouvia sons de máquinas operando, veículos, fábricas, usinas, pessoas, vozes em línguas estranhas.

 

Neftis abriu os olhos. Adiante, colossais edificações, luzes, veículos aéreos e terrestres, enormes monumentos, obeliscos… Era tudo belo, divino. Construções banhadas a ouro, paredes e estradas como mármore negro polido; era uma colossal cidade, como nenhuma outra, era como se ali residissem seres divinos, de outro mundo, era a cidade dos deuses!

 

Eric Ribeiro

Desafio do Comentário – Quando acordo do sonho…

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Como se sabe onde e quando terminou o que julgávamos ser real?

Adormecer ao teu lado e acordar sentindo o teu respirar, o teu abraço que me envolve e no qual me aninho para me saber protegida, ter os teus beijos que nunca se cansam da minha boca que também se mantém ansiosa da tua, olhar-te até que os meus olhos se embaciem e procure ver-te tão dentro que te consiga reconhecer para além deste tempo, lugar e mundo.

Sei como te moves, a covinha que se forma quando sorris, que tom adquire a tua voz quando te enlouqueço, por me queres proteger até de mim.
Sei o quanto esperaste por mim e o que estavas disposto a fazer para me manteres por perto.

Se me amas? Não duvido e nunca foi preciso que o dissesses para que tivesse a certeza, mas hoje, sempre que acordo dos sonhos onde permaneces e dos quais já não podes sair mais, acabo vazia, relutante, a odiar-me por não conseguir dormir sempre, para sempre, porque agora só te consigo ter assim.

Quando acordo do sonho que retomo noite após noite para te voltar a sentir, espero desesperada pelas horas que se recusam a passar à velocidade que necessito para estar de novo no único lugar onde sou eu!

COMENTÁRIO:

Quem teve a oportunidade de ler um texto da Lourdes Mengo, deu de cara com um sentimentalismo profundo e um romantismo forte e sincero. Em “Quando acordo do sonho…”certos aspectos de sua obra ganham destaque; a dúvida constante, o abstrato e, o que é mais marcante, o amor. A escrita poética ganhando tons de prosa é transcendental, o formato curto – quase que único – deixa uma leitura rápida, mas reflexiva.

Texto: “Quando acordo do sonho” – Lourdes Mengo Sue
Comentário: Dan Oliveira

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Dominó

1915, Aisne. 19 Horas, 08 min, 34 segundos, PM.

Os estrondos cessam as duas e dez, mas o cabo Schickelgruber não se deixa enganar pela tranquilidade aparente. De guarda na trincheira, lutando contra o sono, perscruta a noite com olhos miúdos, atento a qualquer movimentação nas linhas inimigas.

Súbito, um clarão avermelhado explode em seus olhos. Cego por alguns segundos, logo recobre a visão e avista ao longe um homem de pé, segurando algo que parece uma arma. Dela, sai um fino feixe de luz vermelha.

Um soldado francês, aqui? E que raio de lanterna é aquela?

Adolf Schickelgruber não se dá tempo para pensar. Com o reflexo condicionado de todos os militares, corre para a sirene de alarme, mas um golpe nas costas o atira longe.

Se tivesse caído de costas, Schickegruber veria, nos segundos de vida que restavam, um enorme buraco em seu peito cortado com a precisão do laser.

Mas o homem que viria a ser conhecido como Adolf Hitler morre com o rosto numa poça, borbulhando sangue e lama fétida.

2145, Aurora. 14 Horas, 11 minutos, 52 segundos, AM.

– Você nunca cansa disso, Isaac? – pergunta o Dr. Aspen.

– Eu não. É divertido. – responde o Dr. Reischenberg, colocando o morteiro laser no rack.

Isaac Reischenberg tem uma coleção de armas impressionante, isso ninguém pode negar. Há desde antiguidades como rifles Garand dos anos 30 e katanas legítimas do shogunato Tokugawa, até aparatos anti-pessoais sofisticadíssimos como a pistola de agulhas que acabara de selecionar para um novo atentado temporal.

– Outra arma de médio alcance?

– Estou sem inspiração hoje. Já joguei Hitler de um penhasco, afoguei, eletrocutei, incinerei, esfolei, estrangulei, esquartejei , desfigurei com ácido, torturei, atropelei, envenenei, espanquei, esfaqueei, decapitei, estripei, sodomizei, enfiei o pau dele num vespeiro…

Pela quinta vez no dia, Ruth Cardona vê o físico judeu entrar no Pórtico e sumir num flash dourado. Já está cheia daquelas demonstrações. Desde que a viagem no tempo foi criada, a primeira coisa que todos tentaram foi reproduzir o velho paradoxo de “o que aconteceria se matássemos Hitler antes dele chegar ao poder?”. O resultado era claro: absolutamente nada.

Ruth quer terminar logo a entrevista, entrar no terminal mais próximo, transmitir a matéria para redação do i-G e tirar folga pelo resto do dia. Então, o Dr. Aspen a leva até o escritório. Enfim, a exclusiva!

Ruth aponta seu i-Y para o cientista e, enquanto capta som e imagens em 3D da sala, edita as cenas no app proprietário do jornal enquanto o Dr. Aspen fala.

– Sinto falta do tempo em que os jornais tinham nomes de verdade. Clarim Diário, Planeta… O seu é o…?

– Era conhecido como New York Globe, senhor, há muitos séculos.

– Hum, bem… Por onde começo? O Pórtico do Tempo, como é comumente chamado, foi desenvolvido em 2134 pelo Instituto Tomohiro e…

– Doutor, – intervém Ruth – isso todos sabem. O que interessa aos nossos interativos são os efeitos das viagens no fluxo temporal.

O Dr. Aspen parece frustrado por não poder exibir seus WikiDados na iV. “Que reporterzinha mais abusada”, pensa.

– Bem, como a senhorita viu, não há nenhum efeito.

– Mas todas as teorias dão como certa a ocorrência de paradoxos. Isso quando não pregam a impossibilidade da viagem física no tempo.

– Estão erradas, é claro. Desde quando nós, cientistas, devemos aceitar algo como imutável ou impossível? Darwin estava errado! Einstein disse que não era possível viajar mais rápido que a luz – errado! Hawking se equivocou em sessenta e três por cento de suas teorias sobre o Universo, e estamos trabalhando para desacreditar os trinta e sete por cento restantes. Não há paradoxos, e a existência do Omnicrono… ahn, do Pórtico é prova suficiente disso!

– E já existe uma explicação para isso?

O Dr. Aspen se empertiga todo para fazer o que mais gosta: expor suas próprias teorias e assombrar o mundo com sua genialidade.

***

1983donimo

O assistente do Dr. Aspen, Jeffery Lombroso, já sabe o que vem a seguir e sai da sala. Encontra Reichenberg voltando para a sala do Pórtico. Desta vez o judeu leva uma simples pistola de agulhas.

– Botei pequenas doses de estricnina nos projéteis – explica – Ele vai morrer em convulsões. A moça ainda está lá dentro?

– Está. O Aspen vai explicar a teoria dele. De novo.

– A Teoria do Dominó? Que saco!

***

– A Teoria do Dominó – começa o Dr. Aspen – é o nome popular da Teoria Avançada dos Segmentos Secundários do Tempo Sequencial como Forma de Proteção do Fluxo Temporal Principal.

Ruth edita toda aquela algaravia técnica. “Teoria do Dominó” é um nome bom o suficiente.

– Imagine o tempo como uma fileira de peças de dominó, cada infinitésimo de segundo representado por uma pedra.

No i-Y, Ruth cria uma animação 3D simples.

– Pois bem: dê um piparote na primeira pedra. Ela cai. Caindo, derruba a seguinte, que derruba a seguinte, e assim por diante. É o Fluxo Temporal Principal.

– Certo – diz Ruth, sem realmente ouvir. Está compondo as legendas ao mesmo tempo em que consulta o dicionário para descobrir que diabos significa “piparote”.

– Uma vez caídas, as pedras nunca mais podem ser reerguidas. O tempo passou. Nada pode alterar isso. MAS… Graças a uma particularidade no fluxo, pode-se chegar às peças antes que elas caiam e, a partir daí, alterar a História a seu bel-prazer.

– Epa! Doutor, o senhor acabou de dizer que o Pórtico não gera paradoxos!

– E é verdade. Mas continue com suas animações infantis e mediabytes, senhorita Ruth. Você vai entender. Quando se altera um fato no passado, algo interessante acontece: uma nova pedra é adicionada ao Dominó do Tempo. O infinitésimo de segundo imediatamente anterior ao alterado pelos Viajantes passa a derrubar não uma, mas duas pedras. A primeira segue o tempo normal, que conhecemos e que estamos vivendo… Agora. A segunda forma um segundo Fluxo Temporal paralelo ao nosso.

– E para onde vai esse novo fluxo?

– Ainda não sabemos. O importante é que os Fluxos paralelos tem o propósito aparente de proteger o Fluxo Principal, desviando mudanças que resultariam em paradoxos. É por isso que a viagem no tempo é totalmente segura para a humanidade!

Neste momento, OUTRO Dr. Aspen entra na sala, carregando um rifle.

– Bem a tempo! – diz o primeiro Dr. Aspen.

Ruth leva alguns segundos para se recompor.

– Que diabos é isso?

– É possível que a senhorita não tenha ficado convencida com minhas explanações, por isso eu, ou melhor, um eu futuro…

– Quinze minutos no futuro, mais precisamente – disse o Dr. Aspen que levava o rifle.

– Sim, basicamente eu – ele – voltamos no tempo para uma demonstração mais radical. Algo que vai impressionar nossos investidores, com certeza. Senhorita Ruth, você vai presenciar um… Assassinato? Suicídio? Ainda não sei, ao certo.

Ruth não estava tão confortável.

– Isso… Isso já foi tentado antes? E é seguro?

– Sabe-se lá. Ainda não fiz isso, pelo menos do MEU ponto de vista – disse o primeiro Dr. Aspen.

– E nem eu. É a primeira vez que faço isso – disse o segundo Dr. Aspen.

– Bem… Sem mais delongas, prossiga com a demonstração – diz Aspen 1.

– Como quiser – responde Aspen 2, que aponta o rifle para a testa de seu eu passado e puxa o gatilho.

 

2145, Aurora. 15 Horas, 51 minutos, 02 segundos, AM.

Ruth grita e não consegue parar, não pode desviar os olhos da cena em sua frente.

Imóveis como em antigas holografias, estão os dois Aspen.

Aspen 2 tem o rifle apontado para a cabeça de sua versão passada, o dedo até o fim no gatilho, o rosto contraído pelo estampido da arma, de cujo cano sai uma coluna de fumaça – imóvel.

Aspen 1, sentado na cadeira, está com metade do crânio arrancado. Pedaços de osso, pele e cérebro flutuam em pleno ar, estáticos, numa imagem congelada. Mas além está a bala, deformada pela velocidade, também parada no ar, a poucos milímetros da parede.

Ruth não precisava ser nenhuma física temporal para entender o que aconteceu, e em algum canto de sua mente ela sabia que tinha conseguido o furo do século. Foi a primeira pessoa a presenciar o que realmente ocorre nos Fluxos Alternativos. Mas ninguém jamais saberá disso.

Quando ocorre um paradoxo, a segunda pedra não forma um novo fluxo, ao contrário do que o Dr. Aspen imaginava. Torna-se apenas um infinitésimo de segundo a parte, uma pedra fora do dominó onde o tempo não tem continuidade.

É possível que no Fluxo Principal alguma versão de Ruth, já tenha entregue a entrevista. Neste momento deve estar em casa, participando algum filme na iV. Ou dormindo. Ou casando e tendo filhos. Ou envelhecendo e morrendo. Não importa. ESTA Ruth, a testemunha viva de um paradoxo, está presa num infinitésimo de segundo.

Há quanto tempo está lá, outra estátua num mundo de estátuas? Horas, dias, meses, anos? Ruth não sabe. Mas suspeita que nunca sofrerá a ação do tempo.

Nunca vai envelhecer.

Nunca vai morrer.

Ruth não tem mais tempo algum, e tem todo o tempo do mundo.

Mas a única coisa que ela pode fazer é continuar gritando.

 

Sergio Martorelli