Desafio Relâmpago (Fantasia) – Dominó

1915, Aisne. 19 Horas, 08 min, 34 segundos, PM.

Os estrondos cessam as duas e dez, mas o cabo Schickelgruber não se deixa enganar pela tranquilidade aparente. De guarda na trincheira, lutando contra o sono, perscruta a noite com olhos miúdos, atento a qualquer movimentação nas linhas inimigas.

Súbito, um clarão avermelhado explode em seus olhos. Cego por alguns segundos, logo recobre a visão e avista ao longe um homem de pé, segurando algo que parece uma arma. Dela, sai um fino feixe de luz vermelha.

Um soldado francês, aqui? E que raio de lanterna é aquela?

Adolf Schickelgruber não se dá tempo para pensar. Com o reflexo condicionado de todos os militares, corre para a sirene de alarme, mas um golpe nas costas o atira longe.

Se tivesse caído de costas, Schickegruber veria, nos segundos de vida que restavam, um enorme buraco em seu peito cortado com a precisão do laser.

Mas o homem que viria a ser conhecido como Adolf Hitler morre com o rosto numa poça, borbulhando sangue e lama fétida.

2145, Aurora. 14 Horas, 11 minutos, 52 segundos, AM.

– Você nunca cansa disso, Isaac? – pergunta o Dr. Aspen.

– Eu não. É divertido. – responde o Dr. Reischenberg, colocando o morteiro laser no rack.

Isaac Reischenberg tem uma coleção de armas impressionante, isso ninguém pode negar. Há desde antiguidades como rifles Garand dos anos 30 e katanas legítimas do shogunato Tokugawa, até aparatos anti-pessoais sofisticadíssimos como a pistola de agulhas que acabara de selecionar para um novo atentado temporal.

– Outra arma de médio alcance?

– Estou sem inspiração hoje. Já joguei Hitler de um penhasco, afoguei, eletrocutei, incinerei, esfolei, estrangulei, esquartejei , desfigurei com ácido, torturei, atropelei, envenenei, espanquei, esfaqueei, decapitei, estripei, sodomizei, enfiei o pau dele num vespeiro…

Pela quinta vez no dia, Ruth Cardona vê o físico judeu entrar no Pórtico e sumir num flash dourado. Já está cheia daquelas demonstrações. Desde que a viagem no tempo foi criada, a primeira coisa que todos tentaram foi reproduzir o velho paradoxo de “o que aconteceria se matássemos Hitler antes dele chegar ao poder?”. O resultado era claro: absolutamente nada.

Ruth quer terminar logo a entrevista, entrar no terminal mais próximo, transmitir a matéria para redação do i-G e tirar folga pelo resto do dia. Então, o Dr. Aspen a leva até o escritório. Enfim, a exclusiva!

Ruth aponta seu i-Y para o cientista e, enquanto capta som e imagens em 3D da sala, edita as cenas no app proprietário do jornal enquanto o Dr. Aspen fala.

– Sinto falta do tempo em que os jornais tinham nomes de verdade. Clarim Diário, Planeta… O seu é o…?

– Era conhecido como New York Globe, senhor, há muitos séculos.

– Hum, bem… Por onde começo? O Pórtico do Tempo, como é comumente chamado, foi desenvolvido em 2134 pelo Instituto Tomohiro e…

– Doutor, – intervém Ruth – isso todos sabem. O que interessa aos nossos interativos são os efeitos das viagens no fluxo temporal.

O Dr. Aspen parece frustrado por não poder exibir seus WikiDados na iV. “Que reporterzinha mais abusada”, pensa.

– Bem, como a senhorita viu, não há nenhum efeito.

– Mas todas as teorias dão como certa a ocorrência de paradoxos. Isso quando não pregam a impossibilidade da viagem física no tempo.

– Estão erradas, é claro. Desde quando nós, cientistas, devemos aceitar algo como imutável ou impossível? Darwin estava errado! Einstein disse que não era possível viajar mais rápido que a luz – errado! Hawking se equivocou em sessenta e três por cento de suas teorias sobre o Universo, e estamos trabalhando para desacreditar os trinta e sete por cento restantes. Não há paradoxos, e a existência do Omnicrono… ahn, do Pórtico é prova suficiente disso!

– E já existe uma explicação para isso?

O Dr. Aspen se empertiga todo para fazer o que mais gosta: expor suas próprias teorias e assombrar o mundo com sua genialidade.

***

1983donimo

O assistente do Dr. Aspen, Jeffery Lombroso, já sabe o que vem a seguir e sai da sala. Encontra Reichenberg voltando para a sala do Pórtico. Desta vez o judeu leva uma simples pistola de agulhas.

– Botei pequenas doses de estricnina nos projéteis – explica – Ele vai morrer em convulsões. A moça ainda está lá dentro?

– Está. O Aspen vai explicar a teoria dele. De novo.

– A Teoria do Dominó? Que saco!

***

– A Teoria do Dominó – começa o Dr. Aspen – é o nome popular da Teoria Avançada dos Segmentos Secundários do Tempo Sequencial como Forma de Proteção do Fluxo Temporal Principal.

Ruth edita toda aquela algaravia técnica. “Teoria do Dominó” é um nome bom o suficiente.

– Imagine o tempo como uma fileira de peças de dominó, cada infinitésimo de segundo representado por uma pedra.

No i-Y, Ruth cria uma animação 3D simples.

– Pois bem: dê um piparote na primeira pedra. Ela cai. Caindo, derruba a seguinte, que derruba a seguinte, e assim por diante. É o Fluxo Temporal Principal.

– Certo – diz Ruth, sem realmente ouvir. Está compondo as legendas ao mesmo tempo em que consulta o dicionário para descobrir que diabos significa “piparote”.

– Uma vez caídas, as pedras nunca mais podem ser reerguidas. O tempo passou. Nada pode alterar isso. MAS… Graças a uma particularidade no fluxo, pode-se chegar às peças antes que elas caiam e, a partir daí, alterar a História a seu bel-prazer.

– Epa! Doutor, o senhor acabou de dizer que o Pórtico não gera paradoxos!

– E é verdade. Mas continue com suas animações infantis e mediabytes, senhorita Ruth. Você vai entender. Quando se altera um fato no passado, algo interessante acontece: uma nova pedra é adicionada ao Dominó do Tempo. O infinitésimo de segundo imediatamente anterior ao alterado pelos Viajantes passa a derrubar não uma, mas duas pedras. A primeira segue o tempo normal, que conhecemos e que estamos vivendo… Agora. A segunda forma um segundo Fluxo Temporal paralelo ao nosso.

– E para onde vai esse novo fluxo?

– Ainda não sabemos. O importante é que os Fluxos paralelos tem o propósito aparente de proteger o Fluxo Principal, desviando mudanças que resultariam em paradoxos. É por isso que a viagem no tempo é totalmente segura para a humanidade!

Neste momento, OUTRO Dr. Aspen entra na sala, carregando um rifle.

– Bem a tempo! – diz o primeiro Dr. Aspen.

Ruth leva alguns segundos para se recompor.

– Que diabos é isso?

– É possível que a senhorita não tenha ficado convencida com minhas explanações, por isso eu, ou melhor, um eu futuro…

– Quinze minutos no futuro, mais precisamente – disse o Dr. Aspen que levava o rifle.

– Sim, basicamente eu – ele – voltamos no tempo para uma demonstração mais radical. Algo que vai impressionar nossos investidores, com certeza. Senhorita Ruth, você vai presenciar um… Assassinato? Suicídio? Ainda não sei, ao certo.

Ruth não estava tão confortável.

– Isso… Isso já foi tentado antes? E é seguro?

– Sabe-se lá. Ainda não fiz isso, pelo menos do MEU ponto de vista – disse o primeiro Dr. Aspen.

– E nem eu. É a primeira vez que faço isso – disse o segundo Dr. Aspen.

– Bem… Sem mais delongas, prossiga com a demonstração – diz Aspen 1.

– Como quiser – responde Aspen 2, que aponta o rifle para a testa de seu eu passado e puxa o gatilho.

 

2145, Aurora. 15 Horas, 51 minutos, 02 segundos, AM.

Ruth grita e não consegue parar, não pode desviar os olhos da cena em sua frente.

Imóveis como em antigas holografias, estão os dois Aspen.

Aspen 2 tem o rifle apontado para a cabeça de sua versão passada, o dedo até o fim no gatilho, o rosto contraído pelo estampido da arma, de cujo cano sai uma coluna de fumaça – imóvel.

Aspen 1, sentado na cadeira, está com metade do crânio arrancado. Pedaços de osso, pele e cérebro flutuam em pleno ar, estáticos, numa imagem congelada. Mas além está a bala, deformada pela velocidade, também parada no ar, a poucos milímetros da parede.

Ruth não precisava ser nenhuma física temporal para entender o que aconteceu, e em algum canto de sua mente ela sabia que tinha conseguido o furo do século. Foi a primeira pessoa a presenciar o que realmente ocorre nos Fluxos Alternativos. Mas ninguém jamais saberá disso.

Quando ocorre um paradoxo, a segunda pedra não forma um novo fluxo, ao contrário do que o Dr. Aspen imaginava. Torna-se apenas um infinitésimo de segundo a parte, uma pedra fora do dominó onde o tempo não tem continuidade.

É possível que no Fluxo Principal alguma versão de Ruth, já tenha entregue a entrevista. Neste momento deve estar em casa, participando algum filme na iV. Ou dormindo. Ou casando e tendo filhos. Ou envelhecendo e morrendo. Não importa. ESTA Ruth, a testemunha viva de um paradoxo, está presa num infinitésimo de segundo.

Há quanto tempo está lá, outra estátua num mundo de estátuas? Horas, dias, meses, anos? Ruth não sabe. Mas suspeita que nunca sofrerá a ação do tempo.

Nunca vai envelhecer.

Nunca vai morrer.

Ruth não tem mais tempo algum, e tem todo o tempo do mundo.

Mas a única coisa que ela pode fazer é continuar gritando.

 

Sergio Martorelli

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