Desafio Relâmpago (Fantasia) – Um convite à Nibiru (#1)

Uma descomunal desolação pairava por toda a face da Terra. O ar era espesso, de modo a dificultar a respiração dos seres viventes. Por toda parte existiam ruínas, velhas carcaças de veículos abandonados e carbonizados, árvores derrubadas e colossais pilhas de restos humanos. O céu cinzento vez ou outra abria pequenas frestas fazendo com que os raios do sol as penetrassem de forma tímida.

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Em uma casa prestes a desmoronar por completo, uma jovem chamada Neftis. Mesmo em condições de extrema precariedade, ainda preservava nos rosto e corpo sua beleza quase divina. Os cabelos pretos e ondulados, os olhos igualmente escuros com expressões de domínio, as sobrancelhas cheias, assim como os lábios, e a pele pálida de aspecto surrado, sujo… A água era escassa, portanto, a garota se privava do luxo de um banho, exceto pela necessidade de higienizar as regiões íntimas de seu belo corpo.

Neftis era uma mulher alta, quase um metro e oitenta, e de idade estimada entre vinte e três e vinte e cinco anos. Não tinha ninguém. Nascera em meio à guerra, fora criada em meio a ela. Treinada a sobreviver e mais nada. Não conhecera o próprio pai, pois este morrera antes de sua mãe a dar à luz. A mãe morrera quando tinha poucos meses de vida. Então, Neftis fora adotada pelos tios, até a sina destes se cumprir. A, ainda criança, fora passada a uma nova família, cuja hora chegara quando Neftis entrava na puberdade. Todos de sua família foram infectados com o vírus que assolou o mundo, além da guerra; chamavam o vírus de “A Maldição do Faraó”. Misteriosamente, Neftis era imune ao vírus. Desde então, passou a vagar sozinha pelo mundo, sem jamais ter encontrado outras pessoas ainda vivas. Havia se passado alguns anos desde o fim da guerra.

Neftis dormia em seu abrigo. A noite era fresca e carregada de fracas correntes de vento que deixava um odor de queimado no ar. Todavia, o ar noturno era mais agradável do que o ar diurno quente e abafado. A jovem sempre dormia embrulhada em seu velho poncho, presente de um errante soldado desesperançoso e sem nome, que carregava em sua farda um número do qual não se recorda, era uma criança ainda naquela época. Preferiria dormir pelos cantos das paredes onde havia uma coluna de sustentação, caso a edificação viesse a ruir.

Os lábios entreabertos respiravam com serenidade, calma, como se o fim do mundo fosse uma simples ilusão projetada por sua cabeça. Sonhos inundavam seu inconsciente todas as noites. Neftis sabia de alguma forma que não pertencia àquele mundo de trevas. Nascera em meio ao caos, mas era convicta de que não morreria nele.

Enxergava sobre sua cabeça um céu vislumbrante, mergulhado em caprichos; eram quatro imensas luas, sendo duas delas dispostas no longínquo horizonte ao norte e as outras duas um pouco mais acima e nordeste. Não havia nuvens, somente o impecavelmente límpido céu. As estrelas luziam como ofuscantes lamparinas de prata, pequenos pontos chamejantes destacados sobre o imenso e profundo vazio. Eram constelações jamais vistas por seres humanos. O visual era tão limpo que todo o universo parecia estar a um braço de distância apenas. Neftis virou-se para o sul, onde viu uma porção de “pequenos” planetas em consideráveis distâncias uns dos outros. Eram, pelo menos, dez, sendo alguns muito semelhantes a Terra, enquanto outros refletiam uma superfície quase escarlate devido o sol marrom refugiado no oriente. E sobre o ponto onde estava a jovem, exatamente no centro do firmamento, uma incessante correnteza de energia eletromagnética de um verde esmeralda, algo muito semelhante à magnífica aurora boreal.

Era tudo incrivelmente belo e fantástico. O ar era puro e a brisa refrescante. Neftis voltou seus olhos enfeitiçados para o chão. Pisava sobre um solo rochoso de cor grafite. E havia brilho naquelas rochas, pequeninos pontos brilhantes, como se houvessem centenas de milhões de minúsculos diamantes incrustados sobre elas. Neftis notou, então, que havia um caminho trilhado em sua frente. Sobre a trilha rochosa, pequenas lamparinas a iluminavam como pontos guiam para quem por ventura passasse por ali.

Neftis se deu conta que estava cercada por um estranho deserto enquanto caminhava. Deserto de rochas escuras e brilhantes, no entanto, havia também populações de estranhas vegetações em vários pontos do imenso planalto, seres dos quais jamais existiram na Terra.

Mais três passos. À sua frente, seu próprio reflexo, que não via havia muito tempo. Neftis se olhou dos pés à cabeça. Mergulhada em meio à noite daquela paisagem exótica e sob as luzes das estrelas e das luas, a jovem Neftis admirou-se com ela mesma por um longo período. Encarou-se. Abriu a boca projetando a língua para fora. Exibiu os dentes e em seguida sorriu envergonhada. Uma tímida lágrima escorreu sobre seu rosto sujo. A garota estendeu a mão e tocou o reflexo. A imagem se distorceu trêmula devida pequenas ondas se formarem, como se a superfície de um pacato lago tivesse suas águas perturbadas por algo.

Com um pequeno susto, Neftis tirou rapidamente a mão do espelho. A projeção voltou ao normal e a moça curiosa quis tocar novamente a substância. Sentira seus dedos submergirem no aparente líquido. Ela desencostou e viu que sua pele estava seca. Repetiu o processo, desta vez, indo mais além. Era fresco como a água, porém, seco como a rocha. Neftis sentira que sua mão alcançara o outro lado, havia uma leve corrente de vento. Destemida, mergulhou no desconhecido. Quis saber a todo custo o que havia além do “espelho d’água”.

Sentira o rosto emergir. Com os olhos ainda fechados, preferiu o reconhecimento auditivo antes de mais nada. Percebeu que não havia mais serenidade. Ouvia sons de máquinas operando, veículos, fábricas, usinas, pessoas, vozes em línguas estranhas.

 

Neftis abriu os olhos. Adiante, colossais edificações, luzes, veículos aéreos e terrestres, enormes monumentos, obeliscos… Era tudo belo, divino. Construções banhadas a ouro, paredes e estradas como mármore negro polido; era uma colossal cidade, como nenhuma outra, era como se ali residissem seres divinos, de outro mundo, era a cidade dos deuses!

 

Eric Ribeiro

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