Desafio Relâmpago (Fantasia) – O quarto

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Lá estava ele, curvado, cabisbaixo. Com a frente voltada para a escuridão. Exalava uma tristeza senil e parecia suspirar a cada vez que o tirávamos do olhar. Já não havia o mesmo ímpeto de antigamente em seus membros e não emanava mais aquele ar revigorante que se propagava até esvoaçar nossos cabelos.

Não era mais belo, tampouco importante como antes. Fora trocado, substituído. Mesmo assim manteve-se forte por um bom tempo. Era de fibra e certa potência, isso era um fato. Se olhássemos bem, até que era um ventilador com certa graça. Tinha lá seu visual antiquado, de uma cor marrom que fazia lembrar papelão molhado, mas tinha classe. E era um sobrevivente, não há como não afirmar.

Infelizmente a depressão lhe tomou por completo ao ser ignorado e esquecido. A tristeza saltava em cada hélice, sua amargura era evidente desde a grade de proteção até seus menores parafusos.

Ao lado dele, se portava um velho televisor de tubo, tão antiquado quanto seu companheiro, mas ainda em atividade, o que lhe dava certo ar de superioridade ante ao deprimente amigo. Um ao lado do outro eram como o Gordo e o Magro. O primeiro, corpulento e de ar estúpido e o segundo, um pobre diabo, que de longe se notava que não havia mais forças para uma reação qualquer quer que fosse.

Está se sentindo bem meu amigo?” – na tela do televisor via-se a imagem de um homem, com ar sério, sentado atrás de uma mesa. Por trás dele, uma imagem de campos e ovelhas no pastoreio trazia um ar de calma ao ambiente e no canto direito superior da tela a havia a imagem de uma cruz ornada com ramos de lírio. – “Eu sei por que você está abatido, mas não se preocupe…”.

Outro canal. Um homem negro num palanque, com alguns seguranças em volta e assistido por uma coletiva de inúmeras pessoas, cada uma carregando algo como um gravador, uma câmera ou o que fosse. “… pois a esperança nunca será perdida!”.

Olhe para mim, ainda estou aqui. Mesmo depois de todo esse tempo.” – a mulher tremia os lábios vermelhos aos pés do jovem de cabelos e olhos claros que a encarava com despojo enquanto a imagem ia sumindo da tela, agora desligada.

– Eu não sou como você. Não consigo ver as coisas por esse seu lado otimista. Aliás, acredito que estamos ambos no mesmo barco agora. O mundo muda, as coisas envelhecem, murcham, param. Olhe para mim. Eu tinha esse mesmo vigor quando tudo aqui funcionava normalmente. Até a chegada daquele crápula, aquele ladrão de lares, que me tirou do conforto da minha própria sala. Eu estava feliz lá sabe. Fiz até amizades, como aquele quadro de orquídeas. Ele era um bom amigo, sempre pronto a nos ouvir. Se não fosse aquele… Aquele…

Um clique na tevê. “CLIMATURBO FREEZE!!! O AR CONDICIONADO QUE ESFRIA DE VERDADE! É SENSACIONAL!!! VOCÊ NÃO PODE PERDER ESSA PROMOÇÃO!! REFRIGERE SUA CASA, MANTENHA UMA TEMPERATURA DE ATÉ 16 GRAUS CELCIUS E TRAGA TODO O CONFORTO QUE SUA FAMILIA PRECISA!!! É SÓ HOJE!!!”

– Pois é, pois é. Obrigado por lembrar, foi muito reconfortante da sua parte. Só não esqueça que você também está aqui jogado nesse quarto comigo. Sua era já foi meu amigo, já passou sua validade. Você foi trocado pela LED que agora ocupa o seu amado lugar na sala. O que você me diz disso?

Uma pequena mosca passando por ali foi na tentativa de pousar na tela, mas foi arremessada para longe pela estática fazendo um zumbido engraçado enquanto voltava cambaleante ao voo. O televisor não sintonizava nada.

– Foi o que eu pensei.

Outro clique. Uma mulher vestida com uma túnica branca estava em pé, sobre um jardim bem ornamentado. Ao fundo, cantos de pássaros e o escoar calmo de uma queda d’água mantinham um ar reflexivo na cena.

Não podemos perder as esperanças”.

Mais um clique e novamente o homem sentado atrás da mesa esbravejava com os olhos saltando pelas órbitas enquanto batia com um livro de capa preta sobre a mesa.

Eu sei que você tem medo, mas eu não! Eu fui doutrinado a jamais temer o mal…”.

E o jovem virava as costas enquanto proferia as últimas palavras do capítulo ao som de uma sinfonia melancólica – “Eu não acredito em você! Fique com suas lamúrias e me deixe em paz.”.

De repente a porta se abriu. Onde tudo era escuridão, um feixe de luz invadia e iluminava algumas áreas do quarto.

O silêncio imperava.

– Você ouviu isso Ricardo? Parecia até que a tevê estava ligada.

– Deu pra ouvir coisas agora Maria Lúcia? Não tem ninguém aqui, olha. – acendeu a luz e os dois entraram.

– Bem, vamos levar essa porcaria daqui. Já está na hora de uma reforma nesse quarto.

– E quanto a esse ventilador velho aqui? – Ricardo se virou duramente enquanto pegava a tevê nas mãos de forma desajeitada.

– Deixa ele aí, vou ver se precisa de concerto e usar aqui no quarto. Isso aqui no verão é um inferno e aquele ar condicionado que minha mãe comprou não gela porcaria nenhuma e ainda custa uma nota.

Ao sair, Ricardo disse para Maria Lúcia:

– E deixe a porta aberta para entrar um ar nesse lugar.

Mike Djorus

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