Desafio Relâmpago (Fantasia) – Abelha Operária

Conta-se que a primeira mulher d’O Povo do âmago da floresta, que em nosso mundo é costumeiramente chamado de Povo das Fadas, surgiu entre as vastas planícies aráveis dos vales do Extremo Sul, onde não há nada além das vozes do silêncio profundo. Naquela época, eram as abelhas que reinavam sobre todas as feras, e os homens não passavam de vultos sob as sombras de suas asas, que cobriam os campos e os trigais como o medo encobre a verdade, porém jamais houve reinado mais justo e bom que o seu. Pois as abelhas sabiam que, se uma tola criatura se libertasse da legislação das grandes colmeias, então todas as outras se levantariam contra elas, e a paz que imperava no mundo desapareceria. Sentadas em seus tronos, as rainhas contemplavam a beleza faiscante das plantações de flores, perdendo-se douradas no horizonte nublado, e as feras dedicavam-se aos seus próprios afazeres, concentradas em caçar, enterrar sementes, migrar conforme a passagem das estações, rastejar, galopar e deslizar nas águas velozes dos córregos e riachos. Assim era a vida no mundo antes que os homens se levantassem e usurpassem o poder das abelhas-rainhas.

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Isso aconteceu numa bela manhã de verão.
A abelha operária zumbia atarefada, coletando néctar, avançando lépida sobre as flores coroadas de pétalas, suas asas num trabalho frenético que jamais cessava. A mulher estava no campo, pastoreando as ovelhas, e vislumbrou aquela estranha dança coreografada, de sobe e desce sob a flor, néctar, vento e deslocamento. Pensou então: “se eu possuísse as asas da abelha, poderia fazer muito mais que cuidar dos animais, e a riqueza de todos os campos seria minha e de minha família.” Deixou, contudo, esse pensamento de lado e deu continuidade ao trabalho, percebendo que soara mesquinha demais.
Mas a abelha operária orquestrara seus próprios planos, tendo ido visitar o seu amigo, o dragão-guardião. O dragão-guardião era uma criatura que resguardava as portas das residências, empoleirando-se no alto destas, cuidando para que ninguém entrasse sem antes ter sido convidado. Ele tinha belas asas azuladas, das quais se orgulhava por lhe permitirem voar ao encalço de possíveis invasores. Mas as grandiosas asas lhe pesavam nas costas, e ele sofria de dores insuportáveis, por isso a abelha sugeriu: “deixe-me carregá-las um pouco para você, meu caro amigo.”
O dragão-guardião então despiu suas asas e entregou-as à abelha, agradecendo pela gentileza. Diante disso, ela voou em disparada para longe dali, dirigindo-se para a teia da aranha, sob os gritos de protesto do dragão, que não podia mais voar.
A aranha contava, naquela época, com sete pares de olhos. Era uma criatura formidável, que passava seus dias a fiar longas teias para capturar insetos. Podia ver o que acontecia em quase todas as direções, de modo que nunca era surpreendida. A abelha pediu a ela: “minha cara, tenho tantos problemas com pássaros famintos. Poderia me conceder um de seus pares de olhos, para que eu fique mais atenta?” A aranha, piedosa, entregou à abelha o que esta lhe pedira, e os olhos eram azuis como o céu da primavera. (A aranha é uma personagem de diversas histórias deste mundo, que contam como perdeu seus pares de olhos até restarem somente quatro). Logo depois, a abelha operária visitou sua terceira amiga: a raposa das neves. Naquela Era perdida do mundo, sua pelugem reluzia em tons obscuros, de modo que não fazia nenhum sentido chamá-la de raposa das neves. Chamavam-na de raposa do campo, simplesmente.
Desejando mais aquela qualidade, a abelha perguntou à raposa: “querida, não é verdade o que me disse, que irá visitar sua parenta, a coruja do ártico, naquelas terras brancas e desoladas do norte?” Ao que a raposa sacudiu a cabeça afirmativamente. Então a abelha fez novo questionamento: “não seria melhor, para sua segurança, livrar-se dessa cor tão escura, que denunciaria sua chegada a todos os predadores da região?” A raposa ponderou sobre o que a abelha dissera, por fim entregou a cor escura de sua pele à operária e partiu em viagem.
Cega de contentamento por ter conseguido se apoderar de três riquezas que a tornariam a mais poderosa abelha do reino, ela não percebeu uma armadilha que lhe fora preparada na campina das flores, e logo foi apanhada num frasco límpido de cristal, do qual não conseguiu se libertar. A mulher, durante a vigília das ovelhas, vira a abelha operária enganar os três animais desavisados. Decidira tomar partido daquela injustiça, questionou a criatura presa no frasco: “Bem, agora você não tem escapatória. O que me dará em troca de sua liberdade?”
Desesperada, a abelha operária prometeu que lhe daria as asas do dragão-guardião. E dizendo isso despiu as asas e passou-as à mulher, que as vestiu. Então a mulher a deixou ir. Por três vezes, a mulher tornou a capturar a abelha, e na terceira, não tendo mais nada para oferecer, a abelha renunciou à sua própria capacidade de conceber. E com isso percebeu que era o fim do reinado das abelhas, que havia surgido uma raça que se elevava em dom e majestade: O Povo das fadas, cujo primeiro representante foi à mulher, que se revelara astuta e corajosa. As quatro riquezas eram apenas suas agora, e nada no mundo poderia separá-las dela. Daquele dia em diante, as fadas e os homens subiram juntos ao governo do mundo, e sua glória e poder estendeu-se por eras incontáveis, enquanto as outras criaturas se curvavam a novos soberanos. O dragão-guardião nunca mais voou, mas ficou feliz por se livrar das dores nas costas. A aranha já não possui tantos olhos, mas os que sobraram lhe bastam para manter os negócios em dia. A raposa do campo passou a se chamar raposa das neves, e agora pode vagar tranquila pelas campinas fria e árida do norte sem ser notada. A abelha operária, entretanto, não conseguiu mais gerar. Agora, essa era uma regalia que pertencia unicamente às rainhas, e a elas os servos que restaram devem continuar louvando, como soberanas únicas capazes de conceber novas abelhas.
E embora a paz entre homens e fadas tenha perdurado, dia chegou em que o poder dos imortais se tornou maior que os dos mortais, e os homens temeram a magia e tentaram bani-la do mundo. Mas isso, é claro, é assunto para outra história.

Jairo Victor

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