Desafio da Música – I’M TITANIUM

tita

Era uma tarde ensolarada, não muito comum na região onde vivia…

– Oi amor – me aproximei para beijá-la, mas ela recuou.

– Bem, precisamos conversar… – ela desviava o olhar.

Esperava que isso acontecesse mais cedo ou mais tarde, não que eu quisesse, era inevitável.

– Eu já sei o que você vai dizer. Não precisa ser assim. Nós ainda podemos…

– Não. Você sabe disso. Não somos mais como costumávamos ser. Eu mudei você mudou também.

– Eu posso voltar a ser o que era antes. Por você, eu sei que posso.

– É, mas… Mas… Eu não sei se eu posso mudar. Não me entenda mal. Você é um ótimo cara e eu sei que vai conseguir superar.

– E tudo que vivemos? Vai simplesmente virar as costas e esquecer tudo que passamos? – apoiei o rosto dela de modo que pudesse ver seu rosto.

Ela nada disse. Uma lágrima roçou seu rosto.

Estava me recusando a acreditar, mas só podia ser isso. Nunca fiz nada de errado, entretanto desde aquele dia nossa relação tinha esfriado.

– É ele não é.

-…

– Não precisa confirmar, eu sei que é.

– Você não está entendendo. Não foi ele quem me fez repensar meus sentimentos. Foi você.

– Como assim eu? Eu nunca fiz nada além de agradar seus gostos.

– Acho que foi por isso mesmo. Não era para ser. Somos muito… Iguais.

– O que? É isso? Você vai me dizer que só por isso está me deixando?

– Sim.

Aquilo me atingiu como uma bala. Sua frieza deixou meu coração gelado. O pior é que essa não é a primeira vez. Já deveria estar preparado, mas não estou e acho que ninguém nunca está.

Levantei-me para ir embora. Quando estava de costas para ela me diz:

– Desculpe-me. Você vai ficar bem?

Seco as lágrimas do meu rosto e sorrio. Sem encará-la respondo:

– Claro, sou feito de titânio.

 Jamelys Jesus

 

Música: Titanium (feat. Sia) – David Guetta


Tradução: Titânio (Part. Sia)

Você grita alto
Mas eu não consigo ouvir uma palavra que você diz
Estou falando alto, não estou dizendo muito
Sou criticada, mas todas as suas balas ricocheteiam
Você me derruba, mas eu me levanto

Sou à prova de balas, nada a perder
Atire, atire
Ricocheteiam, você acerta o alvo
Atire, atire
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio

Corte-me
Mas você é quem terá mais para sofrer
Cidade fantasma, amor assombrado
Levante sua voz, paus e pedras podem quebrar meus ossos
Estou falando alto, não estou dizendo muito

Sou à prova de balas, nada a perder
Atire, atire
ricocheteiam, você acerta o alvo
Atire, atire
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio
Eu sou de titânio

Dura como pedra, metralhadora
Atirando contra os que se levantam
Pedra-dura, como vidro à prova de balas

Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio
Você me derruba, mas não vou cair
Eu sou de titânio

Desafio Relâmpago (Fantasia) – No teu mundo, sou fantasia

lissy-elle

Sou eu quem toca e retoca a poesia

Quem rascunha e apaga as palavras perdidas

Quem te prende no papel e depois suspira

Quem solta o traço, rabisca e transpira.

Esperando a volta das sensações esquecidas

Tendo entre os dedos apenas a madeira áspera do lápis,

Sempre fria.

Se sou eu quem te dá o primeiro fôlego

Quem te desperta do abissal vazio

E quem mergulha na tua atmosfera

Quem será o guardião da fronteira entre as nossas Eras?

Se tenho eu o poder de fazer nascer novas vidas, por que te recrio?

A ópera, o canto, o pássaro, a dança.

Todos refletem o teu rosto, a tua sombra.

E é como vestir peles, trocar de roupa, de fantasia.

Se são minhas ou tuas, quem saberia?

Desfaço a cara feia, a cama arrumada, a tromba.

E me lanço no mundo dos sonhos aonde você sempre avança

A linha que nos separa neste mundo.

Enquanto houver lucidez, seremos reprodutor e criatura

Se sobrar celulose e grafite, nos tornaremos pensamento e canal.

Mas se der errado, tua essência será o meu manto.

Se tudo se acabar, leve-me para conhecer teu pranto.

E a tua dor e a minha loucura atravessarão os limites da moral

E a ausência da minha sanidade será estímulo

Para nossa união eterna, a minha cura.

 

Sra. Lúcifer

Desafio do Comentário – Pena #2

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O riso hipócrita é descaradamente sofrido
O sarcasmo derrotado só deixa seu próprio buraco mais fundo
Mas como otimista, pensei a respeito:

Você escolhe o amor ou ele te escolhe?
Existe realmente o amor?
Ou o que existe é a vontade de amar?

Existe o puro e completo altruísmo?
Não é egoísta o prazer de cuidar de outro ser?
O que move o mundo é o egoísmo?
Ou a luta em negar sua natureza?

Não estamos todos em nossas caixas apertando os botões “corretos”?
Esperando por nossas recompensas?
Ou levando choques para mostrar que pode ser diferente?
Apenas apertando um botão diferente no prazer egoísta de contrariar?

No fim

A verdade talvez seja que estamos mesmo todos sozinhos.
Todos os sete bilhões de nós.

Will Polli

COMENTÁRIO:

A poesia Pena escrita pelo poeta Will Polli é composta por cinco estrofes, com versos nada redondilhos ou decassílabos. Porém com seus versos livres, o poeta buscou não solucionar, mas sim resgatar questões sobre Nós, com a ótica da atualidade, como no verso: “Não estamos todos em nossas caixas apertando os botões “corretos”?”. Onde a meu ver o poeta buscou demonstrar a “solidão” De estarmos conectados, com o mundo de nossas casas, com o poder de julgar se algo é bom ou ruim, pelas teclas do computador.
Todavia, isto não nos torna mais humanos, ou, ao menos próximos,  ja que na ultima estrofe em sua conclusão, o poeta escreve:
“No fim
A verdade talvez seja que estamos mesmo todos sozinhos
Todos os sete bilhões de nós. ”
O que, aliás, faz com que o olhar “otimista” do início, não passe de ironia.

Edson Morais

Desafio do comentário – Pena

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O riso hipócrita é descaradamente sofrido
O sarcasmo derrotado só deixa seu próprio buraco mais fundo
Mas como otimista, pensei a respeito:

Você escolhe o amor ou ele te escolhe?
Existe realmente o amor?
Ou o que existe é a vontade de amar?

Existe o puro e completo altruísmo?
Não é egoísta o prazer de cuidar de outro ser?
O que move o mundo é o egoísmo?
Ou a luta em negar sua natureza?

Não estamos todos em nossas caixas apertando os botões “corretos”?
Esperando por nossas recompensas?
Ou levando choques para mostrar que pode ser diferente?
Apenas apertando um botão diferente no prazer egoísta de contrariar?

No fim

A verdade talvez seja que estamos mesmo todos sozinhos.
Todos os sete bilhões de nós.

Will Polli

COMENTÁRIO:

 

Poesia de alta qualidade. Com um viés voltada toda para a reflexão e para o existencialismo. Inquisidora, não dá descanso ao leitor. Pergunta após pergunta vai construindo seu caminho poético, até a derradeira conclusão que resulta em solidão ou mesmo, pena, o título do poema. Desmascara pretensões de idealizadores e de hipócritas ao mesmo tempo, sem pudores. Ótimo texto que merece ser divulgado.

Um abraço forte,

Mauricio Duarte

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Fantasia ou realidade?

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Amiga 1: É hoje que eu encontro o meu príncipe encantado.

Amiga 2: Amiga, isso é fantasia, não existe isso de príncipe encantado.

Uma semana depois:

Amiga 1: Preciso entrar nesse site, cadastrar o cupom pra participar da promoção e torcer!

Amiga2: E amiga isso é fantasia, não se iluda, vai trabalhar!

Um mês depois:

Amiga 1: Preciso comprar uma roupa branca pra passar o réveillon, pular as sete ondas e, não posso me esquecer da calcinha vermelha.

Amiga2: Amiga, deixa de fantasiar as coisas, tudo isso é ilusão!

 

Amiga 1 : Amiga, a fantasia só existe, se você acredita. Se você não acredita, ela se torna apenas “fantasia”.

 

Joyce Viana

Desafio do Comentário – Com licença…

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Pilhas de relatórios se acumulam na mesa. O serviço tem que continuar. Os ponteiros do relógio seguem e o trabalho não pode parar. Nada para. Passos apressados de um lado para o outro. Os mais diversos sons entrando em conflito e criando uma pequena confusão mental.

Não. Sem distrações. É preciso analisar, carimbar, atender ligações, fazer reuniões, tomar café, vigiar, cobrar recibos, cobrar compromissos, marcar outros, dar satisfações… É preciso estar de pé.

Não funciona. A cabeça roda e lá se vai mais um comprimido. Ao apertar os olhos contra a claridade, lágrimas correm soltas pelo rosto e a dor volta. Um peso na testa não permite a concentração, e como se não conseguisse ficar num lugar só, a “chata” como carinhosamente apelidou, tomava toda a sua cabeça. Sentia o rosto queimar, mas apesar de colocar a mão, não parecia ser febre.

Pegou o primeiro relatório. Ao iniciar a leitura, todas as letras resolveram dançar salsa e mesmo balançando levemente a cabeça, a situação só piorava. Da salsa partiram para um carnaval completo e agora uma lágrima manchou o documento. Fechou e colocou ao lado.

Mãos na cabeça, respiração forçada. Corpo levemente jogado para trás fazendo uma leve inclinação na cadeira que mesmo sendo confortável, não aliviava suas angústias.

Um copo de água. Talvez um café. Não. Ninguém poderia vê-lo naquele estado. Já fazia duas horas e não havia se quer começado o seu trabalho. Tentou mais uma vez. Depois de dois longos parágrafos, começou a pescar. Quase bateu a cabeça sob a mesa. Tinha que tomar cuidado. Mais uma lágrima. Mais uma mancha. Mais um documento ao lado.

Levantou-se. Olhou a janela e a vida seguindo assim como em seu escritório. Ouviu a impressora aquecendo. Viu pessoas apressadas de um lado para o outro na calçada. Pessoas entrando e saindo do seu prédio. Sentou-se novamente. Terceiro relatório. Ao chegar no quinto parágrafo sem se lembrar do que havia lido no anterior deu um pulo com o barulho na porta.

– Com licença senhor. Mais um relatório… Tá tudo bem?

– Ah, sim. Acho que… Esdá dudo mem…

– Seu nariz tá vermelho e o senhor não está respirando direito. Veio trabalhar com gripe de novo?

– Dão…

– Senhor, vai pra casa, eu peço pro Roberto conferir os relatórios. Ou prefere que eu ligue para sua esposa vir te buscar?

– Dão brecisa Bônica. Já esdou indo…  

 

juhliana_lopes

 

COMENTÁRIO:

Olá,

Meu nome Miquéias (Mike Djorus no facebook, caso vocês precisem saber). 

Adorei a iniciativa e a proposta do “Descobrindo Escritores”. Eu, como todo iniciante, travava uma batalha derradeira em busca de algo (projeto, oficina ou coisa qualquer) que oferecesse oportunidades para me desenvolver e facilitasse o contato com outras pessoas que também compartilham do mesmo desejo que eu, o de ajuda mútua.

Eu acredito que a melhor maneira de sair do casulo e começar a lapidar suas criações até transformá-las em uma obra de verdade, seja ouvir o que as pessoas têm a dizer. Sem preconceitos ou intransigências. Sem se consternar com um tom atravessado ou pressupor uma falta de tato com seu texto (e com quaisquer outros) pelo simples fato dessa pessoa ser um comum a você. 

Se abrir a críticas de não críticos é o melhor dos filtros para a qualidade do que você escreve, pois essas pessoas te darão uma opinião vinda do coração e não embasada numa tendência de mercado qualquer. 

Acho até que uma das regras desse desafio deveria ser “exclua os comentários e críticas positivos e exponha os negativos, diga tudo o que você não gostou no texto”. Eu, sinceramente, adoraria saber o que as pessoas acham que estou fazendo de errado. Saber filtrar esse tipo de comentário é o que engrandece seu intelecto e te permite crescer cada vez mais.

O único problema disso tudo está na questão da franqueza. Não com os outros, mas consigo mesmo. Deixar claro para si que você realmente vai ler, pensar, analisar, e dar sua sincera opinião sobre algo que uma pessoa gastou um tempo considerável para extrair de sua imaginação (talvez até de seus desejos ocultos) é o mínimo que você pode fazer a respeito, pois a recíproca desse sentimento é mais que a mesma. Eu, pelo menos, adoraria que lessem meus trabalhos e me dessem opiniões sinceras a respeito, sem pudor. Eu acredito que essa é a mais produtiva das formas para progredirmos. 

O projeto é ótimo, o blog é muito legal e a coletânea é um baita incentivo. Só tenho a parabenizá-los.

Deixando toda essa minha baboseira de lado, vou dar minha singela e humilde opinião sobre um dos textos do livro “Coletânea Descobrindo Escritores – Vol. 1”, o “Com Licença” de juhliana_lopes. Vamos lá:

 

Gostei bastante do tom irônico que ela coloca na narrativa, ainda mais com um tema tão contemporâneo como o excesso de trabalho e como as pessoas abnegam a própria saúde por isso.

O ritmo também ficou bom. A meu ver ficou bastante dinâmico e eu gosto de textos assim, apesar de a cena remeter a certa lerdeza do personagem devido à doença. Fora isso, eu achei bem legal.

Eu acho (e se fixe na importância dessa palavra, “acho”) que por ser um conto, faltou um conflito mais elaborado. Aquela curva que vai ascendendo na linha da narrativa até o ponto de máximo, que costumam chamar de clímax. Acho que faltou algo mais impactante nela, e um desfecho com mais tempero. Ou talvez eu não tenha me atentado às entrelinhas. À segunda história, que está escondida atrás dessa primeira. Se for isso, poderia ser um ótimo ensejo para discutirmos esse conceito mais profundamente.

Bem, é isso. No fim das contas eu falei mais sobre o projeto e menos sobre o texto, além de ir completamente contra meus próprios princípios declarados de que o importante é frisar só os pontos negativos. Perdoem-me por isso, mas é como diz aquela velha máxima, “faça o que digo, não faça o que faço”. O que posso fazer se eu achei o texto realmente bom?  😉

 

Miquéias Dell’Orti

Desafio da Imagem – Quando eu crescer

Mal chego do trabalho e quero descanso. Não dá muito certo… Saio pra trabalhar, volto, saio para estudar… E o único tempo que tenho é no final de semana. Felizmente minha esposa está sempre em casa para a nossa filha. Ela ainda se encanta com o que descobre, eu sou louco por essa princesa. Ela cresce muito rápido.

No outro dia fui com ela para a feira, pela manhã. Uma das minhas raras manhãs de folga, e o Carlinhos, filho do vizinho, deixou os pais na varanda e correu pra minha menininha. Fiquei com muito ciúme. Uma chuva de verão nos pegou em cheio e ela estava encharcada. Ainda assim Carlinhos a cobriu com o guarda chuva e foi com ela até a varanda de nossa casa. Cumprimentei o casal na varanda em frente com um aceno, agradeci a Carlinhos e entramos.

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O cheiro da comida já estava por toda a casa, embora faltasse ainda retirar a mesa do café da manhã. Dei um beijo na minha esposa e ela brigou por ter deixado nossa filha se molhar. Mandou-nos nos secar e logo estávamos prontos para almoçar com ela.

– Papai, posso fazer uma pergunta?

– Todas meu bem.

– Você me ama?

– Sim, claro meu amor.

– Nós dois te amamos. Por que essa pergunta. – Estranhou minha esposa.

– Eu também gosto muito de você, papai. Quando eu crescer você vai casar comigo?

– Meu bem, só podemos casar com uma pessoa. E já sou casado com a mamãe, que também amo.

Ela baixou os olhos. Preocupado eu não sabia o que dizer, e nem minha esposa teve alguma ideia.

– Papai teria que se separar da mamãe para casar com você.

– Ele ama nós duas, meu amor.

– Não quero que o papai deixe a mamãe.

– Eu nunca vou fazer isso. Amo muito as duas.

– Então eu vou casar com o Carlinhos. Ele perguntou, e não é casado.

Ri aliviado. Então era isso, finalmente. Desde quando crianças queriam famílias e responsabilidades de adultos?

– Ele perguntou, é?

– Sim, antes de chegarmos.

– Entendo… Bem, não sou contra se casarem, mas só quando adultos poderão, certo?

Ela concordou e passaram-se os anos. Brincavam juntos, passaram de ano juntos, e natais juntos… Perdi minha esposa e filha 5 anos depois, mas bem, estou melhor do que elas, embora pudesse lhes falar, lhes dizer, lhes abraçar e acalmar… Desde aquele acidente não posso estar com elas para nada, nem para lhes acalmar o choro no meu velório. Mas não trocaria isso pela vida delas.

Minha bebezinha cresce bem, está no meio da faculdade. E minha esposa se empenha no trabalho, e as duas passam o tempo juntas, se divertindo e distraindo. E bom vê-las sorrir…

Mas naquele dia, a casa vazia e o quarto a meia luz…

– Casa comigo!

– Ainda com essa história, Carlos.

– Eu te amo.

– Ama mesmo? Desde os 5 anos?

– Amo mesmo, desde sempre, para sempre.

Minha filha olhou-o como louco, mas cedeu o beijo. Ama mesmo, desde sempre, para sempre. Como ela pudera crescer tão rápido?!

Carlos foi embora em seguida. Será que haveria melhor homem para ela no universo, além de Carlos e eu?

Ele deu prioridade ao trabalho para pagar os estudos, ela aos estudos para um bom trabalho e carreira.

O casamento dos dois foi modesto. O pai de Carlos levou-a ao altar no meu lugar e a mãe chorava demasiado igual minha esposa. Derramavam lágrimas que davam para encher um tanque, minha garotinha era a mais bela de todas, estava segura do que queria, e seu vestido… Parecia uma peça tirada de um encanto, parecia não tocar o chão ao caminhar. O sorriso em seus lábios não poderiam ser retirados. Nunca…

Um ano e meio estiveram casados e percebi seus enjoos. Quis lhe gritar, lhe avisar para que cuidasse a saúde e fosse ao médico. Para que ele lhe desse a notícia. Eu seria avô! Eu teria um neto ou neta! Tão belo ou inteligente como aquela de quem sou pai. A notícia se confirmou, seria uma menina. Outra em minha vida. Outra para me preocupar mais do que meu coração pode suportar.

Nasceu no final de julho, não conheceu minha filha. O acidente a deixara no meio do caminho para casa… Dali fora para o hospital, inconsciente… Queria vê-la novamente, mas não que sofresse. Não, não que sofresse. Não pude ficar ali. Será que Carlos já sabia? Será que ele estava a caminho?

Ele corria entre as pessoas que tumultuavam a calçada. Esquecera de seu carro e de sua carteira. O que podia era ir o quanto antes ao hospital. Não era distante, não poderia ser, mas… A mãe dele o abraçou.

Minha esposa confortou-se apenas quando Carlos passou a morar com ela, mudaram-se para reduzir mais o sofrimento.

Era um bom bairro, uma bela casa e vizinhança. No parque em que iam no verão era possível alimentar os patos de uma ponte curva e verde. Mas não sorriamos com o sorriso de Andrea, nem quando ela passou a engatinhar, andar e a falar… Nada era o mesmo sem sua mãe, como poderia ser?

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Mas ela foi a escola, brincava e ria, tinha amigos. Correndo a frente da avó naquele final de tarde tropeçou e caiu, ralando o joelho. Logo um menino aproximou-se com o pote de sorvete e colocou sobre o machucado.

– Muito obrigada por ajudar a Andrea, Pedrinho. – Disse a vovó.

– Não é nada. Ainda está doendo? – Pedrinho.

– Só um pouco. – Disse a neta.

– Vamos na minha casa para fazer um curativo. – Pedrinho.

– Ah, acho que não é necessário. Ela está bem, não é verdade? – Disse o ciumento papai.

– Eu tenho que cuidar dela. Quando crescer ela vai ser a minha esposa.

– Igual ao que ele me disse, pai.

– Ela é igual a você, minha filha.

 

Arctos Astehria