Desafio da Música – Professor

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Professor é muito mais

Do que alguém pra conversar, alguém pra ensina professor é uma bênção,

Que vem do coração de Deus pra ensinar a gente.

É assim que você é pra nós,

Como uma pérola que mergulhamos pra encontrar.

É assim que você é pra todos,

Um tesouro, que pra sempre vamos guardar.

Professor, nunca vamos desistir de você,

E pela tua vida vamos interceder.

Mesmo que estejamos longe, nosso amor vai lhe encontrar,

Porque vocês são impossíveis de esquecer.

Nós acreditamos em você,

Nós acreditamos nos sonhos de Deus para sua vida.

Professor nós oramos por você,

Porque a tua vitória é certa.

Nunca vamos desistir de você

E pela tua vida vamos interceder.

Mesmo que estejamos longe nosso amor vai te encontrar

Porque vocês são impossíveis de esquecer

Professor nunca vamos desistir de vocês

E Pela tua vida vamos interceder

Mesmo que estamos longe nosso amor vai te encontrar

Porque vocês são impossíveis de esquecer

 

Samara Serapiao

Música: Impossível de Esquecer Fernanda Brum e Eyshila

 

Desafio da Música – Anjo da Vingança

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Mortos por todos os lados formavam um grande tapete vermelho por onde ele passava e ria com escárnio.

Restaram apenas corpos ceifados pela sua lâmina cruel. Nenhuma vítima era inocente.

Suas mãos estavam banhadas pelo sangue de vidas que extirpou.

Ele estava apenas cumprindo seu papel, fazendo justiça.

Sua sentença era a morte!

O crime dos condenados era simples: Iam contra tudo aquilo que pregavam.

Eram todos hipócritas. Cometiam atrocidades em nome de sua falsa moral, vitimando tantos por apenas não seguirem os mesmos errôneos padrões que eles.

Para o ceifador de vidas, não existia um modelo a ser seguido. Como pessoas cheias de pecados poderiam julgar alguém?

Seria ele um demônio ou apenas um anjo justiceiro?

Fato é que não poupava ninguém. Jovens, velhos ou crianças! Todos os réus eram aniquilados, de acordo com o seu grau de merecimento. Uns com mais intensidade, outros nem tanto.

Sua espada era implacável, nem mesmo as lamúrias, gemidos e pedidos de clemência abrandavam seu coração.

Após sentença cumprida, ele partia deixando para trás os criminosos, com a certeza de seu dever cumprido.

Sobrava somente um enorme campo de corpos espalhados pelo chão.

A forte chuva que caía após a insana cena de terror, levava embora o rastro de sangue que ali ficou.

 

Td. Rodrigues

Música: Libre – Tristania

TRADUÇÃO

Livre

Encapsule a noite!
Embrulhe a verdade em papéis de bala
E faça para nós uma encharcada de sangue
Chorosa e triste
Podre até o núcleo
Festa

Eu fico com você agora, meu amigo
Minha língua de navalha está lambendo suas bochechas rosadas e
orelhas feridas
Eu sussurro segredos sórdidos que não são nem verdadeiros, nem
falsos
Eu seguro sua mão em desafio
Amplifique sua voz fraca contra o mau
Eu seguro sua coluna sacudindo-a com o máximo de força

A luz prateada foi destronada
Festeje comigo
Pelo que denominamos o demônio
(E eu devo satisfazer a mim mesmo)

Quando eu morro, Eu mato cem
Quando eu morro, Eu levanto mil

Festeje comigo
Pelo que denominamos o demônio
(E eu devo satisfazer a mim mesmo)

Cada buraco de bala em nossa cidade sagrada
É um orifício pra eu estuprar
Toda mulher assassinada é minha puta
E cada preciosa criança chorando
Um globo de fogo dourado

Todas as crianças choram “Babalon, Babalon”*
Oh mãe, para onde foram todas as suas flores?

Eu sou um dígito divino
Eu sou extensa, eu sou aberta a todos.
Eu vou foder o mundo com meus dedos.

Desafio da Música – Feito Música

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Eu poderia, simplesmente, esquecê-la. Deixar de lembrá-la, de suspirar sua imagem em minha mente, de não querer substitui-la por mais nada. A não ser mais e mais ela. Ela, especialmente, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Uma amiga, uma amada, uma irmã. Seus problemas, suas neuras, suas estranhezas, eram tão similares a mim que estarmos juntos era uma partilha, uma confissão, um desabafo sem limites. Uma terapia gratuita, onde ambos saíamos renovados. Resgatados. Renascidos.

Ironicamente ou não, nossa separação foi justamente por isso. Por termos problemas tão semelhantes que precisaríamos viver sem o outro para resolvê-los. Devíamos aprender a viver sozinhos, livrarmo-nos dos grilhões do passado. Do ciúme, da insegurança, da falta de esperança para o amor. Mas queríamos ser felizes. De qualquer jeito. Só não juntos. Por enquanto.

Era a hora de seguirmos caminhos individuais que, talvez, se cruzassem num futuro incerto. Nada era mais certo. E isso doía. Doía saber que amava alguém que me amava, mas não estava disposta a conviver amando. Junto. Lutando. Junto. Apoiando. O outro. Junto. Juntos. Justo. Era justa, a proposta de isolamento. Nem sempre companhia resolveria problemas. Principalmente os sentimentais. Uma pequena dose de solidão ajuda. Ajuda a saber até que ponto temos noção do perigo que é amar. O outro. Antes de nós mesmos.

Viver a dois é como um acorde musical. Não é apenas escolher notas aleatórias e emitir o som. É preciso conhecer as notas e se elas se combinam. Se elas geram uma harmonia, por mais dissonante que seja. Assim são as pessoas. Mesmo com dissonâncias, formam acordes verdadeiros. E novos acordes surgem. E deles, uma música que é registrada numa pauta e perpetuada por séculos. Assim somos, notas musicais e humanos. Mas nem sempre é sempre assim.

Há pausas. Grandes silêncios. Acidentes. Bemóis e sustenidos. Mas mesmo assim faz parte da música. Nem só de sons é feita uma melodia. A alternância entre isso e aquilo, a consciência do que é som e ruído, faz-nos mais sábios e mais felizes na execução de nossas composições. Um maestro, inclusive, conhece mais de um instrumento musical. Mas existe um, único, especial, exclusivo, que ele não apenas toca. Mas sente. Ama. Vive por ele.

Assim sou. Eu. Com você. Sem você, sou apenas eu. Uma nota solitária, em busca de inspiração para uma melodia. Mas ainda assim, sou importante. Não é uma questão de ser ou não ser. Forte, orgulhoso, fraco, humilde, louco, homem, são, menino… Tudo isso eu sou. E muito mais. Com ou sem você, sou. E é esse “ser” (verbo-humano) que você gostou de conhecer.

Então, por favor, reveja seus conceitos, partituras e arranjos desconexos sentimentais e volta para mim. Nossa música está incompleta. Mas ainda toca. As pessoas nem sabem disso. Mas eu sei. Você sabe. E sabemos que podemos compor tudo, muito melhor, juntos. Bem melhor. Nossa parceria funciona. Nossas canções acalentam almas e corações. Dos outros. Menos os nossos. Está na hora de parar de usar apenas – a fria – técnica e improvisar.

Isso é… Amar. E eu amo. Criar. Inspiração, cadê você?

 

Guilherme Miranda

Música: Say Something (Feat. Christina Aguilera) – A Great Big World 

Tradução:

 

Diga alguma coisa

 

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Eu serei o escolhido se você me quiser

Eu teria te seguido para qualquer lugar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

E eu

Estou me sentindo tão pequeno

Foi demais para minha cabeça

Eu não sei absolutamente nada

E eu

Tropeçarei e cairei

Ainda estou aprendendo a amar

Estou apenas começando a engatinhar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Desculpe-me por não ter conseguido chegar até você

Eu teria te seguido para qualquer lugar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

E eu

Engolirei meu orgulho

Você é a pessoa que eu amo

E estou dizendo adeus

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

E me desculpe por não ter conseguido chegar até você

E eu teria te seguido para qualquer lugar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Diga alguma coisa

Diga alguma coisa

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Abelha Operária

Conta-se que a primeira mulher d’O Povo do âmago da floresta, que em nosso mundo é costumeiramente chamado de Povo das Fadas, surgiu entre as vastas planícies aráveis dos vales do Extremo Sul, onde não há nada além das vozes do silêncio profundo. Naquela época, eram as abelhas que reinavam sobre todas as feras, e os homens não passavam de vultos sob as sombras de suas asas, que cobriam os campos e os trigais como o medo encobre a verdade, porém jamais houve reinado mais justo e bom que o seu. Pois as abelhas sabiam que, se uma tola criatura se libertasse da legislação das grandes colmeias, então todas as outras se levantariam contra elas, e a paz que imperava no mundo desapareceria. Sentadas em seus tronos, as rainhas contemplavam a beleza faiscante das plantações de flores, perdendo-se douradas no horizonte nublado, e as feras dedicavam-se aos seus próprios afazeres, concentradas em caçar, enterrar sementes, migrar conforme a passagem das estações, rastejar, galopar e deslizar nas águas velozes dos córregos e riachos. Assim era a vida no mundo antes que os homens se levantassem e usurpassem o poder das abelhas-rainhas.

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Isso aconteceu numa bela manhã de verão.
A abelha operária zumbia atarefada, coletando néctar, avançando lépida sobre as flores coroadas de pétalas, suas asas num trabalho frenético que jamais cessava. A mulher estava no campo, pastoreando as ovelhas, e vislumbrou aquela estranha dança coreografada, de sobe e desce sob a flor, néctar, vento e deslocamento. Pensou então: “se eu possuísse as asas da abelha, poderia fazer muito mais que cuidar dos animais, e a riqueza de todos os campos seria minha e de minha família.” Deixou, contudo, esse pensamento de lado e deu continuidade ao trabalho, percebendo que soara mesquinha demais.
Mas a abelha operária orquestrara seus próprios planos, tendo ido visitar o seu amigo, o dragão-guardião. O dragão-guardião era uma criatura que resguardava as portas das residências, empoleirando-se no alto destas, cuidando para que ninguém entrasse sem antes ter sido convidado. Ele tinha belas asas azuladas, das quais se orgulhava por lhe permitirem voar ao encalço de possíveis invasores. Mas as grandiosas asas lhe pesavam nas costas, e ele sofria de dores insuportáveis, por isso a abelha sugeriu: “deixe-me carregá-las um pouco para você, meu caro amigo.”
O dragão-guardião então despiu suas asas e entregou-as à abelha, agradecendo pela gentileza. Diante disso, ela voou em disparada para longe dali, dirigindo-se para a teia da aranha, sob os gritos de protesto do dragão, que não podia mais voar.
A aranha contava, naquela época, com sete pares de olhos. Era uma criatura formidável, que passava seus dias a fiar longas teias para capturar insetos. Podia ver o que acontecia em quase todas as direções, de modo que nunca era surpreendida. A abelha pediu a ela: “minha cara, tenho tantos problemas com pássaros famintos. Poderia me conceder um de seus pares de olhos, para que eu fique mais atenta?” A aranha, piedosa, entregou à abelha o que esta lhe pedira, e os olhos eram azuis como o céu da primavera. (A aranha é uma personagem de diversas histórias deste mundo, que contam como perdeu seus pares de olhos até restarem somente quatro). Logo depois, a abelha operária visitou sua terceira amiga: a raposa das neves. Naquela Era perdida do mundo, sua pelugem reluzia em tons obscuros, de modo que não fazia nenhum sentido chamá-la de raposa das neves. Chamavam-na de raposa do campo, simplesmente.
Desejando mais aquela qualidade, a abelha perguntou à raposa: “querida, não é verdade o que me disse, que irá visitar sua parenta, a coruja do ártico, naquelas terras brancas e desoladas do norte?” Ao que a raposa sacudiu a cabeça afirmativamente. Então a abelha fez novo questionamento: “não seria melhor, para sua segurança, livrar-se dessa cor tão escura, que denunciaria sua chegada a todos os predadores da região?” A raposa ponderou sobre o que a abelha dissera, por fim entregou a cor escura de sua pele à operária e partiu em viagem.
Cega de contentamento por ter conseguido se apoderar de três riquezas que a tornariam a mais poderosa abelha do reino, ela não percebeu uma armadilha que lhe fora preparada na campina das flores, e logo foi apanhada num frasco límpido de cristal, do qual não conseguiu se libertar. A mulher, durante a vigília das ovelhas, vira a abelha operária enganar os três animais desavisados. Decidira tomar partido daquela injustiça, questionou a criatura presa no frasco: “Bem, agora você não tem escapatória. O que me dará em troca de sua liberdade?”
Desesperada, a abelha operária prometeu que lhe daria as asas do dragão-guardião. E dizendo isso despiu as asas e passou-as à mulher, que as vestiu. Então a mulher a deixou ir. Por três vezes, a mulher tornou a capturar a abelha, e na terceira, não tendo mais nada para oferecer, a abelha renunciou à sua própria capacidade de conceber. E com isso percebeu que era o fim do reinado das abelhas, que havia surgido uma raça que se elevava em dom e majestade: O Povo das fadas, cujo primeiro representante foi à mulher, que se revelara astuta e corajosa. As quatro riquezas eram apenas suas agora, e nada no mundo poderia separá-las dela. Daquele dia em diante, as fadas e os homens subiram juntos ao governo do mundo, e sua glória e poder estendeu-se por eras incontáveis, enquanto as outras criaturas se curvavam a novos soberanos. O dragão-guardião nunca mais voou, mas ficou feliz por se livrar das dores nas costas. A aranha já não possui tantos olhos, mas os que sobraram lhe bastam para manter os negócios em dia. A raposa do campo passou a se chamar raposa das neves, e agora pode vagar tranquila pelas campinas fria e árida do norte sem ser notada. A abelha operária, entretanto, não conseguiu mais gerar. Agora, essa era uma regalia que pertencia unicamente às rainhas, e a elas os servos que restaram devem continuar louvando, como soberanas únicas capazes de conceber novas abelhas.
E embora a paz entre homens e fadas tenha perdurado, dia chegou em que o poder dos imortais se tornou maior que os dos mortais, e os homens temeram a magia e tentaram bani-la do mundo. Mas isso, é claro, é assunto para outra história.

Jairo Victor

Desafio Relâmpago (Fantasia) – O quarto

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Lá estava ele, curvado, cabisbaixo. Com a frente voltada para a escuridão. Exalava uma tristeza senil e parecia suspirar a cada vez que o tirávamos do olhar. Já não havia o mesmo ímpeto de antigamente em seus membros e não emanava mais aquele ar revigorante que se propagava até esvoaçar nossos cabelos.

Não era mais belo, tampouco importante como antes. Fora trocado, substituído. Mesmo assim manteve-se forte por um bom tempo. Era de fibra e certa potência, isso era um fato. Se olhássemos bem, até que era um ventilador com certa graça. Tinha lá seu visual antiquado, de uma cor marrom que fazia lembrar papelão molhado, mas tinha classe. E era um sobrevivente, não há como não afirmar.

Infelizmente a depressão lhe tomou por completo ao ser ignorado e esquecido. A tristeza saltava em cada hélice, sua amargura era evidente desde a grade de proteção até seus menores parafusos.

Ao lado dele, se portava um velho televisor de tubo, tão antiquado quanto seu companheiro, mas ainda em atividade, o que lhe dava certo ar de superioridade ante ao deprimente amigo. Um ao lado do outro eram como o Gordo e o Magro. O primeiro, corpulento e de ar estúpido e o segundo, um pobre diabo, que de longe se notava que não havia mais forças para uma reação qualquer quer que fosse.

Está se sentindo bem meu amigo?” – na tela do televisor via-se a imagem de um homem, com ar sério, sentado atrás de uma mesa. Por trás dele, uma imagem de campos e ovelhas no pastoreio trazia um ar de calma ao ambiente e no canto direito superior da tela a havia a imagem de uma cruz ornada com ramos de lírio. – “Eu sei por que você está abatido, mas não se preocupe…”.

Outro canal. Um homem negro num palanque, com alguns seguranças em volta e assistido por uma coletiva de inúmeras pessoas, cada uma carregando algo como um gravador, uma câmera ou o que fosse. “… pois a esperança nunca será perdida!”.

Olhe para mim, ainda estou aqui. Mesmo depois de todo esse tempo.” – a mulher tremia os lábios vermelhos aos pés do jovem de cabelos e olhos claros que a encarava com despojo enquanto a imagem ia sumindo da tela, agora desligada.

– Eu não sou como você. Não consigo ver as coisas por esse seu lado otimista. Aliás, acredito que estamos ambos no mesmo barco agora. O mundo muda, as coisas envelhecem, murcham, param. Olhe para mim. Eu tinha esse mesmo vigor quando tudo aqui funcionava normalmente. Até a chegada daquele crápula, aquele ladrão de lares, que me tirou do conforto da minha própria sala. Eu estava feliz lá sabe. Fiz até amizades, como aquele quadro de orquídeas. Ele era um bom amigo, sempre pronto a nos ouvir. Se não fosse aquele… Aquele…

Um clique na tevê. “CLIMATURBO FREEZE!!! O AR CONDICIONADO QUE ESFRIA DE VERDADE! É SENSACIONAL!!! VOCÊ NÃO PODE PERDER ESSA PROMOÇÃO!! REFRIGERE SUA CASA, MANTENHA UMA TEMPERATURA DE ATÉ 16 GRAUS CELCIUS E TRAGA TODO O CONFORTO QUE SUA FAMILIA PRECISA!!! É SÓ HOJE!!!”

– Pois é, pois é. Obrigado por lembrar, foi muito reconfortante da sua parte. Só não esqueça que você também está aqui jogado nesse quarto comigo. Sua era já foi meu amigo, já passou sua validade. Você foi trocado pela LED que agora ocupa o seu amado lugar na sala. O que você me diz disso?

Uma pequena mosca passando por ali foi na tentativa de pousar na tela, mas foi arremessada para longe pela estática fazendo um zumbido engraçado enquanto voltava cambaleante ao voo. O televisor não sintonizava nada.

– Foi o que eu pensei.

Outro clique. Uma mulher vestida com uma túnica branca estava em pé, sobre um jardim bem ornamentado. Ao fundo, cantos de pássaros e o escoar calmo de uma queda d’água mantinham um ar reflexivo na cena.

Não podemos perder as esperanças”.

Mais um clique e novamente o homem sentado atrás da mesa esbravejava com os olhos saltando pelas órbitas enquanto batia com um livro de capa preta sobre a mesa.

Eu sei que você tem medo, mas eu não! Eu fui doutrinado a jamais temer o mal…”.

E o jovem virava as costas enquanto proferia as últimas palavras do capítulo ao som de uma sinfonia melancólica – “Eu não acredito em você! Fique com suas lamúrias e me deixe em paz.”.

De repente a porta se abriu. Onde tudo era escuridão, um feixe de luz invadia e iluminava algumas áreas do quarto.

O silêncio imperava.

– Você ouviu isso Ricardo? Parecia até que a tevê estava ligada.

– Deu pra ouvir coisas agora Maria Lúcia? Não tem ninguém aqui, olha. – acendeu a luz e os dois entraram.

– Bem, vamos levar essa porcaria daqui. Já está na hora de uma reforma nesse quarto.

– E quanto a esse ventilador velho aqui? – Ricardo se virou duramente enquanto pegava a tevê nas mãos de forma desajeitada.

– Deixa ele aí, vou ver se precisa de concerto e usar aqui no quarto. Isso aqui no verão é um inferno e aquele ar condicionado que minha mãe comprou não gela porcaria nenhuma e ainda custa uma nota.

Ao sair, Ricardo disse para Maria Lúcia:

– E deixe a porta aberta para entrar um ar nesse lugar.

Mike Djorus

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Será que sou um anjo das trevas?

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Inquieta, rolando na cama de um lado para o outro, Alana tenta dormir. Havia algumas semanas que não conseguia pregar os olhos. Ela pega o celular que está de baixo do seu travesseiro para poder ver as horas. Já passava das três da madrugada, ela pensa em tomar um calmante mesmo que o sono não venha, ela poderia relaxar.

Apenas com a luz do celular acesa, tenta chegar atéo canto do quarto para pegar sua bolsa que estava no cabideiro, mas quando chegou à metade do caminho, pisou em algo e cortou seu pé esquerdoque começou a sangrar no mesmo instante. Abaixou-se para poder ver em que tinha pisado, porém, não conseguiu ver nada.

Apoiando o peso do seu corpo sobre sua perna direita a jovem atravessa o quarto e vai em direção da porta para poder encontrar o interruptor. Quando acende a luz se surpreende. O chão do seu quarto está marcado com pingos de sangue. Como um simples corte conseguiu fazer todo aquele estrago?! Imediatamente Alana olha para seu pé, e constata que a ferida não era muito profunda, mas o que a teria cortado?

Procurando por todo o chão, encontra algo que parecia ser pequena de unha afiadíssima, um metal resistente. Curiosa, à morena de cabelos negros se ela se abaixa e pega a unha. Nunca e sua vida tinha visto nada parecido com aquilo. Ao olhar mais detalhadamente se espanta, viu a unha reluzir. ( Estaria ela delirando?)Como aquilo foi parar em seu apartamento? E o que exatamente seria aquilo?

Seu pé não parava de sangrar ela pega uma toalha envolve seu pé para vê se consegue fazer com que o sangramento cesse. Após limpar seu ferimento se deita, pois a dor era insuportável já não conseguia nem procurar a bolsa de remédios. Ao deitar seu corpo sobre a cama, Alana sente algo nas suas costas, encolhe os ombros algumas vezes para ver se o incomodo passava. Mas, não. Não passou e nem as horas, que se tornaram intermináveis. Um desconforto fora do normal estava assolando Alana, pois já não era somente seu pé que doía. A dor que estava sentindo nas costas estava ficando cada vez mais forte parecia que ela tinha dormido em cima de uma cama de espinhos, tal era o incômodo. Era como se tivesse lâminas encravadas bem no centro das costas, que queimavam, coçavam e ardiam tudo ao mesmo tempo. Sua força foi se esvaindo com a dor.

Vagarosamente ela tenta se levantar da cama e com muita dificuldade, ela se senta. Tudo em sua volta estava girando alucinadamente podia ver as paredes do quarto se movendo, sua visão ficou distorcida seus olhos ficavam cada vez mais pesados, a dor já tinha alcançado um nível insuportável seu sangue fervilhava em suas veias, o corpo gritava de dor…

Como em um flash suas costas se rasgam, e o sangue esguicha para todos os lados. Seu corpo fica coberto pelo seu sangue quente. Abruptamente ela se levanta, a ferida queimava ainda mais, e em um gesto de desespero ela lança suas costas contra a parede. Abismou-se com a sensação que teve, pois a dor foi dissipada no mesmo instante!

Alana pode sentir algo saindo das suas costas, grandioso e afiado. Em pânico ela tenta colocar suas mãos para trás na tentativa desesperada de descobrir o que era aquilo, lamentavelmente não consegue! Ela leva as mãos ensanguentadas ao rosto e chora desenfreadamente.

Com os olhos embaçados ela olha para a parede e vê uma imagem surreal; uma grande mancha de sangue no formato de um par de asas. Ela tenta se acalmar, ajeita seus ombros de forma que as asas possam ser tocadas por suas mãos. Incontáveis penas macias e negras que contrasta com as milhares lâminas extremamente afiada das pontas. Seu coração batia em um ritmo frenético e não conseguia raciocinar. Sua respiração diminui, e aos poucos volta a se sentir mal, leva uma das mãos ao peito e com a outra se escora na parede. O peso das asas faz com que ela se desequilibre e caia de bruços no chão. Sua cabeça bate na quina da mesinha de cabeceira, fazendo com que ela perdesse a consciência.

Lentamente Alana recobra a consciência, olha em volta e vê que não está mais em seu quarto, talvez estivesse tendo um sonho delirante, pois as asas ainda faziam parte do seu corpo, porém elas já não tinham lâminas, eram apenas penas brancas; longas e perfeitamente definidas que envolvia seu corpo como um escudo.

Não aguentando de ansiedade, ela sai do seu casulo, olha em volta e não acredita no que seus olhos mentirosos estavam vendo.

Uma imensa escuridão que ao longe, podia-se ver montanhas em chamas, como vales sombrios. No Sinistro céu, amedrontadoras nuvens negras nebulosas e bem por de trás das nuvens, lá estavam três inacreditáveis luas cheias, vermelhas com as bordas pratas uma paralela a outra.

Ainda muito fraca, ela tenta se levantar, tira as asas que estão envolvendo seu corpo, e quando nota, está desnuda! Então, volta a cobrir seu corpo com suas asas. Vendo logo abaixo um precipício onde corria um rio de águas negras fumegantes, alana já não raciocinava, já não era dona da si. Como se algo mais poderoso, uma força oculta a impulsionasse, ela se joga no precipício. Se fosse ela, um anjo negro, aquele seria o momento de ser revelar, em meia àquela sinistra e amedrontadora treva.

Fim

 

Daniela Valadares

Indicação do moderador – O Gato preto

Indicação: Juhliana Lopes

Texto: O Gato preto – Edgar Allan Poe

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratandopoe-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas consequências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram.  No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais. Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava,  especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões frequentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.  Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.  Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade.  Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia frequentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.  Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.  Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.  Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim.  Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.  Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.  Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade.  Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele.  Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.  Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.  Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma sequencia de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.  Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa — , o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.  Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então frequentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.  Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.  Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.  Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo- me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo.  Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.  De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.  Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.  No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo — , pelo pavor extremo que o animal me despertava.  Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso — , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!  Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!  Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, frequentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.  Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar. O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.  Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de ideia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma ideia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.  Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.  E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.  O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranquila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.  Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.  No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.  — Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez.  Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.  Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.  Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror.  Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.  Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.  Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

 

Edgar Allan Poe