Os números literários de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog. E nós estamos compartilhando com vocês este crescimento. Pedimos desculpas também pela ausência desse ano, mas em breve voltaremos com força total!

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.300 vezes em 2014. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

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Desafio Relâmpago (Fantasia) – Fantasia é…

Sorriso+Largo-+def

Fantasia é aquilo

Que a gente inspira

Quando não é mais menino

É aquilo que a gente expira

Quando ainda está no ninho.

 

Aninhado entre os braços

Defendido e estimado.

No labirinto de enlaços

De quem nos ama e é amado.

 

Fantasia é aquilo…

Como dizer sem se ferir?

Aquele riso que ecoa, e busca.

Que te tira da cama.

 

A voz que não lhe sorri,

O cheiro que não lhe pertence.

Parado ali, com julgamentos,

Quem não é mais presente.

 

Arctos Astehria

Desafio dos Seres – O encontro dos sacis e o Curupira

jose3Os índios brasileiros ensinavam seus filhos a respeitarem a floresta e os animais contando histórias de seres mágicos, protetores de plantas e bichos. As crianças cresciam com as histórias na cabeça e criam mesmo que eram verdade. Monteiro Lobato estudou muitas destas lendas e mitos. O pesquisador e escritor criou um Saci-Pererê a partir das histórias que ouviu – o saci de Lobato foi a síntese da miscigenação brasileira – dos índios, o espírito brincalhão e travesso com o objetivo de defender as árvores e animais da floresta contra os predadores humanos; dos portugueses a figura dos trasgos, rápidos e espertos, capazes de distrair as pessoas, esconder coisas e confundir caminhos, surgindo no meio de redemoinhos de vento; dos europeus a carapuça vermelha, mágica, fonte de seus poderes especiais; e dos africanos a cor da pele, o cachimbo e a perna única, com grande habilidade de saltar, como um capoeirista que perdeu uma perna na luta.

Estes sacis brotam nos brotos do bambu e ficam ali por sete anos, saindo depois para viverem por mais setenta e sete anos. Cada floresta, regado ou vale tem o seu saci protetor. Ao morrerem viram cogumelos venenosos encantadores que continuam ajudando a proteger as matas e córregos.

jose2Já o curupira é um ser único, imortal, com aparência de pequeno menino, ou anão, de dentes verdes-esmeralda, olhos e cabelos vermelhos, e pés virados para trás. Desloca-se tão velozmente que protege todas as grandes florestas. Sua magia é provocar ilusões em caçadores e lenhadores de tal forma que eles ficam perdidos na mata, andando em círculos até que as provisões acabam e morrem de fome, enlouquecidos. O curupira vive nas velhas mangueiras e são amigos dos índios, sábios a quem as outras criaturas recorrem para ouvir conselhos.

Os sacis podem ser capturados facilmente jogando-se uma peneira nos redemoinhos e tirando suas carapuças vermelhas da cabeça. Assim imediatamente transmutam-se em crianças indefesas. Já o curupira não pode ser capturado, no máximo, consegue-se livrar-se de seus encantamentos jogando-lhe um novelo de cipó bem amarrado de forma que ele fica horas tentando achar a ponta enquanto a vítima foge.

Uma vez, à sombra de uma frondosa mangueira centenária aconteceu uma reunião inusitada. Dezenas de sacis sem carapuça achegaram ao curupira para perguntarem como recuperar seus chapéus mágicos. O curupira ouviu o relato atentamente enquanto penteava a cabeleireira com os dedos dos pés. Após oferecer mangas-rosa aos seus súditos pelados de cachimbo no canto das bocas entreabertas, começou a falar:

– Meninos, vocês cometeram dois erros. Primeiro, deixaram-se capturar. Segundo, pensam que seus poderes estão nas suas carapuças. Quanto ao primeiro não posso fazer nada a não ser dizer que sejam mais espertos da próxima vez. Os homens são muito mais astutos do que parecem ser. Agora, quanto ao segundo erro, preciso lhes dizer, esta coisa de poderes mágicos em chapéus vermelhos é coisa de gringo, invencionice do povo que não sabe de nada. O poder de vocês está no espírito da mata. E o espírito da mata sou eu.

– Mas por que então desde que perdemos o chapéu, não conseguimos mais enganar ninguém? – Perguntou um sacizinho invocado que estava lá atrás de todos.

O Curupira desceu da mangueira e foi andando em sua direção, abrindo caminho entre os sacis assustados. Encarou-o nos olhos e disse:

– Você ouviu o que eu disse? Eu sou o espírito que lhes dá poder. Se não conseguem maisfazer travessuras é porque eu queria encontrar vocês hoje. Eu que chamei vocês aqui. Entendeu?

– Sim, senhor. E o senhor vai fazer o que com nós?

– Vou mostrar que vocês não precisam do chapéu vermelho ridículo. Sigam-me!

E o curupira partiu veloz. Tão rápido que os sacis ficaram parados sem saber para onde ir. O invocado então apontou para as marcas dos pés no chão e correu para o lado oposto. Pegou carona num redemoinho. E sumiu. Os outros ficaram rindo dele. Ficaram rindo tanto que deitaram no chão. Dormiram. Os cachimbos caíram. Quando acordaram estavam amarrados numa rede e pendurados na mangueira. Curupira e o invocado rindo deles. Curupira pegou os cachimbos no chão. Mostrou a eles.

– E agora, seus pestinhas? Sem chapéu e sem cachimbo. Vou entregar vocês para um zoológico? Ou um circo?

Diante de um uníssono grito de “Não!”, perguntou ao invocado o que fazer, e o saci orgulhoso de si, pediu mais uma chance para os irmãos. Curupira aceitou e abriu a rede.

– Pois vou fazer o seguinte. O invocado e eu vamos esconder seus cachimbos. Quem encontrar depois que contarmos até três e já! poderá voltar para a mata e brincar de ser Saci-Pererê.

E assim se fez. Passaram-se horas até que todos os sacis voltaram à mangueira com os cachimbos nas mãos. Nas mãos. As bocas caladas. Na mente uma só pergunta – cadê o meu? Quem está com o meu?

– O teste final é esse. Quero cada um com seu cachimbo na boca até eu contar até trinta. Um, dois, três… trinta!

E todos os sacis estavam rindo com cachimbos na boca. Sem briga nem discussão. Liberados para voltar a brincar.

 

José Leão

 

Desafio Doenças – Com licença

Pilhas de relatórios se acumulam na mesa. O serviço tem que continuar. Os ponteiros do relógio seguem e o trabalho não pode parar. Nada para. Passos apressados de um lado para o outro. Os mais diversos sons entrando em conflito e criando uma pequena confusão mental.

Não. Sem distrações. É preciso analisar, carimbar, atender ligações, fazer reuniões, tomar café, vigiar, cobrar recibos, cobrar compromissos, marcar outros, dar satisfações… É preciso estar de pé.

Não funciona. A cabeça roda e lá se vai mais um comprimido. Ao apertar os olhos contra a claridade, lágrimas correm soltas pelo rosto e a dor volta. Um peso na testa não permite a concentração, e como se não conseguisse ficar num lugar só, a “chata” como carinhosamente apelidou, tomava toda a sua cabeça. Sentia o rosto queimar, mas apesar de colocar a mão, não parecia ser febre.

Pegou o primeiro relatório. Ao iniciar a leitura, todas as letras resolveram dançar salsa e mesmo balançando levemente a cabeça, a situação só piorava. Da salsa partiram para um carnaval completo e agora uma lágrima manchou o documento. Fechou e colocou ao lado.

Mãos na cabeça, respiração forçada. Corpo levemente jogado para trás fazendo uma leve inclinação na cadeira que mesmo sendo confortável, não aliviava suas angústias.

Um copo de água. Talvez um café. Não. Ninguém poderia vê-lo naquele estado. Já fazia duas horas e não havia se quer começado o seu trabalho. Tentou mais uma vez. Depois de dois longos parágrafos, começou a pescar. Quase bateu a cabeça sob a mesa. Tinha que tomar cuidado. Mais uma lágrima. Mais uma mancha. Mais um documento ao lado.

janelaLevantou-se. Olhou a janela e a vida seguindo assim como em seu escritório. Ouviu a impressora aquecendo. Viu pessoas apressadas de um lado para o outro na calçada. Pessoas entrando e saindo do seu prédio. Sentou-se novamente. Terceiro relatório. Ao chegar no quinto parágrafo sem se lembrar do que havia lido no anterior deu um pulo com o barulho na porta.

– Com licença senhor. Mais um relatório… Tá tudo bem?

– Ah, sim. Acho que… Esdá dudo mem…

– Seu nariz tá vermelho e o senhor não está respirando direito. Veio trabalhar com gripe de novo?

Dão…

– Senhor, vai pra casa, eu peço pro Roberto conferir os relatórios. Ou prefere que eu ligue para sua esposa vir te buscar?

Dão brecisa Bônica. Já esdou indo…  

 

juhliana_lopes

Desafio Doenças – Laringitis

joseMadrugada. Sono solitário da mãe com seus dois filhos. Abandonada há poucos dias nesta casa no fim do mundo. Ela dorme com os olhos dançando nas órbitas, por baixo das pálpebras cerradas. Sonha com cães a ladrar, incansáveis, atacando seus pés e bainha do vestido. Incômodo tamanho que a desperta. Mas os cães não calam. Agora não são mais cães a ladrar, o som vem do quarto das crianças. A menina dorme agitada, esfregando os olhos, quase acordando com o barulho. O menino está sentado, sonado, tosse com as mãos na boca, a face rubra. Com a chegada da mãe, disfônico, choraminga. A dispneia piora a cada instante. Instinto astuto de mãe, apoia-lhe as costas, abre a janela, molha seus lábios com um pouco d’água. Fica assim de plantão até raiar o dia. O sol encontra o menino cochilando, sentado, cabeça pendendo para o lado ao final de cada esforço para tomar o ar. Ela está de pé na janela, – a quem recorrer? Passa um caçador para a mata. Um rapaz de roupas modestas. Enche-se de coragem e chama o moço. A situação é de urgência. Ele demonstra preocupação. Deixa espingarda e saco na casa, volta para chamar D. Dilene, rezadora, a “enfermeira” do lugar. Aquela senhora de 60 anos, trazendo ervas, vem com boa vontade e fé. Examina o menino e faz arder no fogo uma panela com água e folhas de eucalipto. Molha uma toalha com a água quente e envolve o tronco dele. O vapor da panela posta a sua frente, ele inala naturalmente ao respirar. Mas não respira naturalmente. Arranca a toalha, arranha as costas da mãe, agarra a grade da cama procurando ponto de apoio para respirar. Pouco a pouco fica arroxeado, o corpo a suar frio, parece que definha e desiste. D. Dilene, o caçador e a mãe temem pelo pior e começam a rezar o pai-nosso.

– Filhinho querido, fale com a mamãe… Sua mãezinha está aqui, você vai ficar bom, meu bebezinho. – Ela, de joelhos ao lado da cama, reza e tenta acalmar o menino.

A agonia causa abalos convulsivos que fazem o menino fletir o corpo para tentar um último suspiro a fim de tossir. Afinal vomita algo como um langanho espesso e branco-amarelado, em forma de tubo viscoso. Cai no leito, o sono sobrevém enfim e o domina. A mãe chora a iminente morte do filho, o caçador sai do quarto. D. Dilene aproxima-se e, reexamina João.

Aliviada, assume o próprio ritmo respiratório dele, e vê que é bom.

Lábios rosados, sem estridor, sem tosse, sem susto, o menino está curado antes do meio-dia.

 

José Leão