Desafio da Música – Feito Música

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Eu poderia, simplesmente, esquecê-la. Deixar de lembrá-la, de suspirar sua imagem em minha mente, de não querer substitui-la por mais nada. A não ser mais e mais ela. Ela, especialmente, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Uma amiga, uma amada, uma irmã. Seus problemas, suas neuras, suas estranhezas, eram tão similares a mim que estarmos juntos era uma partilha, uma confissão, um desabafo sem limites. Uma terapia gratuita, onde ambos saíamos renovados. Resgatados. Renascidos.

Ironicamente ou não, nossa separação foi justamente por isso. Por termos problemas tão semelhantes que precisaríamos viver sem o outro para resolvê-los. Devíamos aprender a viver sozinhos, livrarmo-nos dos grilhões do passado. Do ciúme, da insegurança, da falta de esperança para o amor. Mas queríamos ser felizes. De qualquer jeito. Só não juntos. Por enquanto.

Era a hora de seguirmos caminhos individuais que, talvez, se cruzassem num futuro incerto. Nada era mais certo. E isso doía. Doía saber que amava alguém que me amava, mas não estava disposta a conviver amando. Junto. Lutando. Junto. Apoiando. O outro. Junto. Juntos. Justo. Era justa, a proposta de isolamento. Nem sempre companhia resolveria problemas. Principalmente os sentimentais. Uma pequena dose de solidão ajuda. Ajuda a saber até que ponto temos noção do perigo que é amar. O outro. Antes de nós mesmos.

Viver a dois é como um acorde musical. Não é apenas escolher notas aleatórias e emitir o som. É preciso conhecer as notas e se elas se combinam. Se elas geram uma harmonia, por mais dissonante que seja. Assim são as pessoas. Mesmo com dissonâncias, formam acordes verdadeiros. E novos acordes surgem. E deles, uma música que é registrada numa pauta e perpetuada por séculos. Assim somos, notas musicais e humanos. Mas nem sempre é sempre assim.

Há pausas. Grandes silêncios. Acidentes. Bemóis e sustenidos. Mas mesmo assim faz parte da música. Nem só de sons é feita uma melodia. A alternância entre isso e aquilo, a consciência do que é som e ruído, faz-nos mais sábios e mais felizes na execução de nossas composições. Um maestro, inclusive, conhece mais de um instrumento musical. Mas existe um, único, especial, exclusivo, que ele não apenas toca. Mas sente. Ama. Vive por ele.

Assim sou. Eu. Com você. Sem você, sou apenas eu. Uma nota solitária, em busca de inspiração para uma melodia. Mas ainda assim, sou importante. Não é uma questão de ser ou não ser. Forte, orgulhoso, fraco, humilde, louco, homem, são, menino… Tudo isso eu sou. E muito mais. Com ou sem você, sou. E é esse “ser” (verbo-humano) que você gostou de conhecer.

Então, por favor, reveja seus conceitos, partituras e arranjos desconexos sentimentais e volta para mim. Nossa música está incompleta. Mas ainda toca. As pessoas nem sabem disso. Mas eu sei. Você sabe. E sabemos que podemos compor tudo, muito melhor, juntos. Bem melhor. Nossa parceria funciona. Nossas canções acalentam almas e corações. Dos outros. Menos os nossos. Está na hora de parar de usar apenas – a fria – técnica e improvisar.

Isso é… Amar. E eu amo. Criar. Inspiração, cadê você?

 

Guilherme Miranda

Música: Say Something (Feat. Christina Aguilera) – A Great Big World 

Tradução:

 

Diga alguma coisa

 

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Eu serei o escolhido se você me quiser

Eu teria te seguido para qualquer lugar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

E eu

Estou me sentindo tão pequeno

Foi demais para minha cabeça

Eu não sei absolutamente nada

E eu

Tropeçarei e cairei

Ainda estou aprendendo a amar

Estou apenas começando a engatinhar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Desculpe-me por não ter conseguido chegar até você

Eu teria te seguido para qualquer lugar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

E eu

Engolirei meu orgulho

Você é a pessoa que eu amo

E estou dizendo adeus

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

E me desculpe por não ter conseguido chegar até você

E eu teria te seguido para qualquer lugar

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Diga alguma coisa, estou desistindo de você

Diga alguma coisa

Diga alguma coisa

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Desafio Relâmpago (Fantasia) – No teu mundo, sou fantasia

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Sou eu quem toca e retoca a poesia

Quem rascunha e apaga as palavras perdidas

Quem te prende no papel e depois suspira

Quem solta o traço, rabisca e transpira.

Esperando a volta das sensações esquecidas

Tendo entre os dedos apenas a madeira áspera do lápis,

Sempre fria.

Se sou eu quem te dá o primeiro fôlego

Quem te desperta do abissal vazio

E quem mergulha na tua atmosfera

Quem será o guardião da fronteira entre as nossas Eras?

Se tenho eu o poder de fazer nascer novas vidas, por que te recrio?

A ópera, o canto, o pássaro, a dança.

Todos refletem o teu rosto, a tua sombra.

E é como vestir peles, trocar de roupa, de fantasia.

Se são minhas ou tuas, quem saberia?

Desfaço a cara feia, a cama arrumada, a tromba.

E me lanço no mundo dos sonhos aonde você sempre avança

A linha que nos separa neste mundo.

Enquanto houver lucidez, seremos reprodutor e criatura

Se sobrar celulose e grafite, nos tornaremos pensamento e canal.

Mas se der errado, tua essência será o meu manto.

Se tudo se acabar, leve-me para conhecer teu pranto.

E a tua dor e a minha loucura atravessarão os limites da moral

E a ausência da minha sanidade será estímulo

Para nossa união eterna, a minha cura.

 

Sra. Lúcifer

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Abelha Operária

Conta-se que a primeira mulher d’O Povo do âmago da floresta, que em nosso mundo é costumeiramente chamado de Povo das Fadas, surgiu entre as vastas planícies aráveis dos vales do Extremo Sul, onde não há nada além das vozes do silêncio profundo. Naquela época, eram as abelhas que reinavam sobre todas as feras, e os homens não passavam de vultos sob as sombras de suas asas, que cobriam os campos e os trigais como o medo encobre a verdade, porém jamais houve reinado mais justo e bom que o seu. Pois as abelhas sabiam que, se uma tola criatura se libertasse da legislação das grandes colmeias, então todas as outras se levantariam contra elas, e a paz que imperava no mundo desapareceria. Sentadas em seus tronos, as rainhas contemplavam a beleza faiscante das plantações de flores, perdendo-se douradas no horizonte nublado, e as feras dedicavam-se aos seus próprios afazeres, concentradas em caçar, enterrar sementes, migrar conforme a passagem das estações, rastejar, galopar e deslizar nas águas velozes dos córregos e riachos. Assim era a vida no mundo antes que os homens se levantassem e usurpassem o poder das abelhas-rainhas.

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Isso aconteceu numa bela manhã de verão.
A abelha operária zumbia atarefada, coletando néctar, avançando lépida sobre as flores coroadas de pétalas, suas asas num trabalho frenético que jamais cessava. A mulher estava no campo, pastoreando as ovelhas, e vislumbrou aquela estranha dança coreografada, de sobe e desce sob a flor, néctar, vento e deslocamento. Pensou então: “se eu possuísse as asas da abelha, poderia fazer muito mais que cuidar dos animais, e a riqueza de todos os campos seria minha e de minha família.” Deixou, contudo, esse pensamento de lado e deu continuidade ao trabalho, percebendo que soara mesquinha demais.
Mas a abelha operária orquestrara seus próprios planos, tendo ido visitar o seu amigo, o dragão-guardião. O dragão-guardião era uma criatura que resguardava as portas das residências, empoleirando-se no alto destas, cuidando para que ninguém entrasse sem antes ter sido convidado. Ele tinha belas asas azuladas, das quais se orgulhava por lhe permitirem voar ao encalço de possíveis invasores. Mas as grandiosas asas lhe pesavam nas costas, e ele sofria de dores insuportáveis, por isso a abelha sugeriu: “deixe-me carregá-las um pouco para você, meu caro amigo.”
O dragão-guardião então despiu suas asas e entregou-as à abelha, agradecendo pela gentileza. Diante disso, ela voou em disparada para longe dali, dirigindo-se para a teia da aranha, sob os gritos de protesto do dragão, que não podia mais voar.
A aranha contava, naquela época, com sete pares de olhos. Era uma criatura formidável, que passava seus dias a fiar longas teias para capturar insetos. Podia ver o que acontecia em quase todas as direções, de modo que nunca era surpreendida. A abelha pediu a ela: “minha cara, tenho tantos problemas com pássaros famintos. Poderia me conceder um de seus pares de olhos, para que eu fique mais atenta?” A aranha, piedosa, entregou à abelha o que esta lhe pedira, e os olhos eram azuis como o céu da primavera. (A aranha é uma personagem de diversas histórias deste mundo, que contam como perdeu seus pares de olhos até restarem somente quatro). Logo depois, a abelha operária visitou sua terceira amiga: a raposa das neves. Naquela Era perdida do mundo, sua pelugem reluzia em tons obscuros, de modo que não fazia nenhum sentido chamá-la de raposa das neves. Chamavam-na de raposa do campo, simplesmente.
Desejando mais aquela qualidade, a abelha perguntou à raposa: “querida, não é verdade o que me disse, que irá visitar sua parenta, a coruja do ártico, naquelas terras brancas e desoladas do norte?” Ao que a raposa sacudiu a cabeça afirmativamente. Então a abelha fez novo questionamento: “não seria melhor, para sua segurança, livrar-se dessa cor tão escura, que denunciaria sua chegada a todos os predadores da região?” A raposa ponderou sobre o que a abelha dissera, por fim entregou a cor escura de sua pele à operária e partiu em viagem.
Cega de contentamento por ter conseguido se apoderar de três riquezas que a tornariam a mais poderosa abelha do reino, ela não percebeu uma armadilha que lhe fora preparada na campina das flores, e logo foi apanhada num frasco límpido de cristal, do qual não conseguiu se libertar. A mulher, durante a vigília das ovelhas, vira a abelha operária enganar os três animais desavisados. Decidira tomar partido daquela injustiça, questionou a criatura presa no frasco: “Bem, agora você não tem escapatória. O que me dará em troca de sua liberdade?”
Desesperada, a abelha operária prometeu que lhe daria as asas do dragão-guardião. E dizendo isso despiu as asas e passou-as à mulher, que as vestiu. Então a mulher a deixou ir. Por três vezes, a mulher tornou a capturar a abelha, e na terceira, não tendo mais nada para oferecer, a abelha renunciou à sua própria capacidade de conceber. E com isso percebeu que era o fim do reinado das abelhas, que havia surgido uma raça que se elevava em dom e majestade: O Povo das fadas, cujo primeiro representante foi à mulher, que se revelara astuta e corajosa. As quatro riquezas eram apenas suas agora, e nada no mundo poderia separá-las dela. Daquele dia em diante, as fadas e os homens subiram juntos ao governo do mundo, e sua glória e poder estendeu-se por eras incontáveis, enquanto as outras criaturas se curvavam a novos soberanos. O dragão-guardião nunca mais voou, mas ficou feliz por se livrar das dores nas costas. A aranha já não possui tantos olhos, mas os que sobraram lhe bastam para manter os negócios em dia. A raposa do campo passou a se chamar raposa das neves, e agora pode vagar tranquila pelas campinas fria e árida do norte sem ser notada. A abelha operária, entretanto, não conseguiu mais gerar. Agora, essa era uma regalia que pertencia unicamente às rainhas, e a elas os servos que restaram devem continuar louvando, como soberanas únicas capazes de conceber novas abelhas.
E embora a paz entre homens e fadas tenha perdurado, dia chegou em que o poder dos imortais se tornou maior que os dos mortais, e os homens temeram a magia e tentaram bani-la do mundo. Mas isso, é claro, é assunto para outra história.

Jairo Victor

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Fantasia é…

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Fantasia é aquilo

Que a gente inspira

Quando não é mais menino

É aquilo que a gente expira

Quando ainda está no ninho.

 

Aninhado entre os braços

Defendido e estimado.

No labirinto de enlaços

De quem nos ama e é amado.

 

Fantasia é aquilo…

Como dizer sem se ferir?

Aquele riso que ecoa, e busca.

Que te tira da cama.

 

A voz que não lhe sorri,

O cheiro que não lhe pertence.

Parado ali, com julgamentos,

Quem não é mais presente.

 

Arctos Astehria

Desafio Relâmpago (Fantasia) – O quarto

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Lá estava ele, curvado, cabisbaixo. Com a frente voltada para a escuridão. Exalava uma tristeza senil e parecia suspirar a cada vez que o tirávamos do olhar. Já não havia o mesmo ímpeto de antigamente em seus membros e não emanava mais aquele ar revigorante que se propagava até esvoaçar nossos cabelos.

Não era mais belo, tampouco importante como antes. Fora trocado, substituído. Mesmo assim manteve-se forte por um bom tempo. Era de fibra e certa potência, isso era um fato. Se olhássemos bem, até que era um ventilador com certa graça. Tinha lá seu visual antiquado, de uma cor marrom que fazia lembrar papelão molhado, mas tinha classe. E era um sobrevivente, não há como não afirmar.

Infelizmente a depressão lhe tomou por completo ao ser ignorado e esquecido. A tristeza saltava em cada hélice, sua amargura era evidente desde a grade de proteção até seus menores parafusos.

Ao lado dele, se portava um velho televisor de tubo, tão antiquado quanto seu companheiro, mas ainda em atividade, o que lhe dava certo ar de superioridade ante ao deprimente amigo. Um ao lado do outro eram como o Gordo e o Magro. O primeiro, corpulento e de ar estúpido e o segundo, um pobre diabo, que de longe se notava que não havia mais forças para uma reação qualquer quer que fosse.

Está se sentindo bem meu amigo?” – na tela do televisor via-se a imagem de um homem, com ar sério, sentado atrás de uma mesa. Por trás dele, uma imagem de campos e ovelhas no pastoreio trazia um ar de calma ao ambiente e no canto direito superior da tela a havia a imagem de uma cruz ornada com ramos de lírio. – “Eu sei por que você está abatido, mas não se preocupe…”.

Outro canal. Um homem negro num palanque, com alguns seguranças em volta e assistido por uma coletiva de inúmeras pessoas, cada uma carregando algo como um gravador, uma câmera ou o que fosse. “… pois a esperança nunca será perdida!”.

Olhe para mim, ainda estou aqui. Mesmo depois de todo esse tempo.” – a mulher tremia os lábios vermelhos aos pés do jovem de cabelos e olhos claros que a encarava com despojo enquanto a imagem ia sumindo da tela, agora desligada.

– Eu não sou como você. Não consigo ver as coisas por esse seu lado otimista. Aliás, acredito que estamos ambos no mesmo barco agora. O mundo muda, as coisas envelhecem, murcham, param. Olhe para mim. Eu tinha esse mesmo vigor quando tudo aqui funcionava normalmente. Até a chegada daquele crápula, aquele ladrão de lares, que me tirou do conforto da minha própria sala. Eu estava feliz lá sabe. Fiz até amizades, como aquele quadro de orquídeas. Ele era um bom amigo, sempre pronto a nos ouvir. Se não fosse aquele… Aquele…

Um clique na tevê. “CLIMATURBO FREEZE!!! O AR CONDICIONADO QUE ESFRIA DE VERDADE! É SENSACIONAL!!! VOCÊ NÃO PODE PERDER ESSA PROMOÇÃO!! REFRIGERE SUA CASA, MANTENHA UMA TEMPERATURA DE ATÉ 16 GRAUS CELCIUS E TRAGA TODO O CONFORTO QUE SUA FAMILIA PRECISA!!! É SÓ HOJE!!!”

– Pois é, pois é. Obrigado por lembrar, foi muito reconfortante da sua parte. Só não esqueça que você também está aqui jogado nesse quarto comigo. Sua era já foi meu amigo, já passou sua validade. Você foi trocado pela LED que agora ocupa o seu amado lugar na sala. O que você me diz disso?

Uma pequena mosca passando por ali foi na tentativa de pousar na tela, mas foi arremessada para longe pela estática fazendo um zumbido engraçado enquanto voltava cambaleante ao voo. O televisor não sintonizava nada.

– Foi o que eu pensei.

Outro clique. Uma mulher vestida com uma túnica branca estava em pé, sobre um jardim bem ornamentado. Ao fundo, cantos de pássaros e o escoar calmo de uma queda d’água mantinham um ar reflexivo na cena.

Não podemos perder as esperanças”.

Mais um clique e novamente o homem sentado atrás da mesa esbravejava com os olhos saltando pelas órbitas enquanto batia com um livro de capa preta sobre a mesa.

Eu sei que você tem medo, mas eu não! Eu fui doutrinado a jamais temer o mal…”.

E o jovem virava as costas enquanto proferia as últimas palavras do capítulo ao som de uma sinfonia melancólica – “Eu não acredito em você! Fique com suas lamúrias e me deixe em paz.”.

De repente a porta se abriu. Onde tudo era escuridão, um feixe de luz invadia e iluminava algumas áreas do quarto.

O silêncio imperava.

– Você ouviu isso Ricardo? Parecia até que a tevê estava ligada.

– Deu pra ouvir coisas agora Maria Lúcia? Não tem ninguém aqui, olha. – acendeu a luz e os dois entraram.

– Bem, vamos levar essa porcaria daqui. Já está na hora de uma reforma nesse quarto.

– E quanto a esse ventilador velho aqui? – Ricardo se virou duramente enquanto pegava a tevê nas mãos de forma desajeitada.

– Deixa ele aí, vou ver se precisa de concerto e usar aqui no quarto. Isso aqui no verão é um inferno e aquele ar condicionado que minha mãe comprou não gela porcaria nenhuma e ainda custa uma nota.

Ao sair, Ricardo disse para Maria Lúcia:

– E deixe a porta aberta para entrar um ar nesse lugar.

Mike Djorus

Desafio do Comentário – Pena #2

arrependimento

O riso hipócrita é descaradamente sofrido
O sarcasmo derrotado só deixa seu próprio buraco mais fundo
Mas como otimista, pensei a respeito:

Você escolhe o amor ou ele te escolhe?
Existe realmente o amor?
Ou o que existe é a vontade de amar?

Existe o puro e completo altruísmo?
Não é egoísta o prazer de cuidar de outro ser?
O que move o mundo é o egoísmo?
Ou a luta em negar sua natureza?

Não estamos todos em nossas caixas apertando os botões “corretos”?
Esperando por nossas recompensas?
Ou levando choques para mostrar que pode ser diferente?
Apenas apertando um botão diferente no prazer egoísta de contrariar?

No fim

A verdade talvez seja que estamos mesmo todos sozinhos.
Todos os sete bilhões de nós.

Will Polli

COMENTÁRIO:

A poesia Pena escrita pelo poeta Will Polli é composta por cinco estrofes, com versos nada redondilhos ou decassílabos. Porém com seus versos livres, o poeta buscou não solucionar, mas sim resgatar questões sobre Nós, com a ótica da atualidade, como no verso: “Não estamos todos em nossas caixas apertando os botões “corretos”?”. Onde a meu ver o poeta buscou demonstrar a “solidão” De estarmos conectados, com o mundo de nossas casas, com o poder de julgar se algo é bom ou ruim, pelas teclas do computador.
Todavia, isto não nos torna mais humanos, ou, ao menos próximos,  ja que na ultima estrofe em sua conclusão, o poeta escreve:
“No fim
A verdade talvez seja que estamos mesmo todos sozinhos
Todos os sete bilhões de nós. ”
O que, aliás, faz com que o olhar “otimista” do início, não passe de ironia.

Edson Morais

Desafio Relâmpago (Fantasia) – Será que sou um anjo das trevas?

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Inquieta, rolando na cama de um lado para o outro, Alana tenta dormir. Havia algumas semanas que não conseguia pregar os olhos. Ela pega o celular que está de baixo do seu travesseiro para poder ver as horas. Já passava das três da madrugada, ela pensa em tomar um calmante mesmo que o sono não venha, ela poderia relaxar.

Apenas com a luz do celular acesa, tenta chegar atéo canto do quarto para pegar sua bolsa que estava no cabideiro, mas quando chegou à metade do caminho, pisou em algo e cortou seu pé esquerdoque começou a sangrar no mesmo instante. Abaixou-se para poder ver em que tinha pisado, porém, não conseguiu ver nada.

Apoiando o peso do seu corpo sobre sua perna direita a jovem atravessa o quarto e vai em direção da porta para poder encontrar o interruptor. Quando acende a luz se surpreende. O chão do seu quarto está marcado com pingos de sangue. Como um simples corte conseguiu fazer todo aquele estrago?! Imediatamente Alana olha para seu pé, e constata que a ferida não era muito profunda, mas o que a teria cortado?

Procurando por todo o chão, encontra algo que parecia ser pequena de unha afiadíssima, um metal resistente. Curiosa, à morena de cabelos negros se ela se abaixa e pega a unha. Nunca e sua vida tinha visto nada parecido com aquilo. Ao olhar mais detalhadamente se espanta, viu a unha reluzir. ( Estaria ela delirando?)Como aquilo foi parar em seu apartamento? E o que exatamente seria aquilo?

Seu pé não parava de sangrar ela pega uma toalha envolve seu pé para vê se consegue fazer com que o sangramento cesse. Após limpar seu ferimento se deita, pois a dor era insuportável já não conseguia nem procurar a bolsa de remédios. Ao deitar seu corpo sobre a cama, Alana sente algo nas suas costas, encolhe os ombros algumas vezes para ver se o incomodo passava. Mas, não. Não passou e nem as horas, que se tornaram intermináveis. Um desconforto fora do normal estava assolando Alana, pois já não era somente seu pé que doía. A dor que estava sentindo nas costas estava ficando cada vez mais forte parecia que ela tinha dormido em cima de uma cama de espinhos, tal era o incômodo. Era como se tivesse lâminas encravadas bem no centro das costas, que queimavam, coçavam e ardiam tudo ao mesmo tempo. Sua força foi se esvaindo com a dor.

Vagarosamente ela tenta se levantar da cama e com muita dificuldade, ela se senta. Tudo em sua volta estava girando alucinadamente podia ver as paredes do quarto se movendo, sua visão ficou distorcida seus olhos ficavam cada vez mais pesados, a dor já tinha alcançado um nível insuportável seu sangue fervilhava em suas veias, o corpo gritava de dor…

Como em um flash suas costas se rasgam, e o sangue esguicha para todos os lados. Seu corpo fica coberto pelo seu sangue quente. Abruptamente ela se levanta, a ferida queimava ainda mais, e em um gesto de desespero ela lança suas costas contra a parede. Abismou-se com a sensação que teve, pois a dor foi dissipada no mesmo instante!

Alana pode sentir algo saindo das suas costas, grandioso e afiado. Em pânico ela tenta colocar suas mãos para trás na tentativa desesperada de descobrir o que era aquilo, lamentavelmente não consegue! Ela leva as mãos ensanguentadas ao rosto e chora desenfreadamente.

Com os olhos embaçados ela olha para a parede e vê uma imagem surreal; uma grande mancha de sangue no formato de um par de asas. Ela tenta se acalmar, ajeita seus ombros de forma que as asas possam ser tocadas por suas mãos. Incontáveis penas macias e negras que contrasta com as milhares lâminas extremamente afiada das pontas. Seu coração batia em um ritmo frenético e não conseguia raciocinar. Sua respiração diminui, e aos poucos volta a se sentir mal, leva uma das mãos ao peito e com a outra se escora na parede. O peso das asas faz com que ela se desequilibre e caia de bruços no chão. Sua cabeça bate na quina da mesinha de cabeceira, fazendo com que ela perdesse a consciência.

Lentamente Alana recobra a consciência, olha em volta e vê que não está mais em seu quarto, talvez estivesse tendo um sonho delirante, pois as asas ainda faziam parte do seu corpo, porém elas já não tinham lâminas, eram apenas penas brancas; longas e perfeitamente definidas que envolvia seu corpo como um escudo.

Não aguentando de ansiedade, ela sai do seu casulo, olha em volta e não acredita no que seus olhos mentirosos estavam vendo.

Uma imensa escuridão que ao longe, podia-se ver montanhas em chamas, como vales sombrios. No Sinistro céu, amedrontadoras nuvens negras nebulosas e bem por de trás das nuvens, lá estavam três inacreditáveis luas cheias, vermelhas com as bordas pratas uma paralela a outra.

Ainda muito fraca, ela tenta se levantar, tira as asas que estão envolvendo seu corpo, e quando nota, está desnuda! Então, volta a cobrir seu corpo com suas asas. Vendo logo abaixo um precipício onde corria um rio de águas negras fumegantes, alana já não raciocinava, já não era dona da si. Como se algo mais poderoso, uma força oculta a impulsionasse, ela se joga no precipício. Se fosse ela, um anjo negro, aquele seria o momento de ser revelar, em meia àquela sinistra e amedrontadora treva.

Fim

 

Daniela Valadares