Desafio da Música – Dê-me apenas um motivo

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Tudo me entediava naquele domingo a noite. Eu havia acabado de me enrolar debaixo do cobertor com um bom livro como companhia, quando ouvi movimentos próximos, do lado de fora. Imaginando que nada fosse, concentrei-me na página a minha frente. Os ruídos se intensificaram. Alguém batia palmas em um ritmo frenético. Como isso era extremamente incomum, fiquei imediatamente curiosa e fui até a sacada descobrir o que estava acontecendo lá embaixo. Ao pisar fora da porta, senti frio. Mas não recuei.

Lá estava Michael. Loiro, alto, olhos verdes que pareciam quase tímidos, ou seria temerosos. Uma figura tão conhecida, em um lugar tão improvável. Senti a garganta apertar e as pernas ameaçando fraquejar. Recostei-me a grade da sacada e observei Michael sentar-se em um banco que trazia com ele e tirar um violão da bolsa que carregava no ombro. Diversos pensamentos atropelavam-se em minha mente. Que tipo de brincadeira seria aquela? Será que eu deveria entrar e deixá-lo ali? O curso desses pensamentos foi abruptamente interrompido pela música que começara. Michael parecia tenso, os dedos dançando pelas cordas do instrumento, mas esforçava-se ao máximo para esconder isso. Não reconheci a música que começava. Tão pouco me movi dali. Aquela melodia me envolvia aos poucos, e só então notei como a noite estava bela.

“Desde o início, você foi um ladrão, você roubou meu coração.” Começou Michael. Sua voz era profunda, mas ao mesmo tempo doce quente. Exatamente como eu me lembrava. Ele fechara os olhos, e agora aparentava segurança e até certa serenidade, como se se congratulasse pela coragem de fazer aquilo.

Lembrei-me de como, em um dia qualquer, encontráramo-nos em um parque. A partir daí,  passamos a ir todos os dias ao mesmo local. Descobrimos que estudávamos na mesma escola, que gostávamos da mesma banda, que ambos somos devoradores de livros. Eu estava me apaixonando. E a confirmação disso veio na tarde em que ele, pela primeira vez, colocou seus braços a meu redor.

“Deixei que você visse partes de mim que não eram tão bonitas. E, a cada toque, você as consertou…” Prosseguia ele, entregando-se. Lembrei-me dos nossos tantos momentos, dos filmes que assistimos abraçados no sofá, das sessões de estudo para as provas de francês, do nosso piquenique na chuva. De como eu admirava, não, admiro a sinceridade e o jeito direto de Michael. De como ele costumava dizer que eu levo as coisas muito a sério e que nessas horas eu sempre ria e tentava, sem sucesso, fazer uma piada qualquer, o que fazia-o  rir também.

Eu estava completamente em choque, olhos fitos na imagem de Michael, mas meus pensamentos continuavam, seguindo a cadência da música que ele habilidosamente interpretava. Recordei as nossas discordâncias, nossos pontos de conflito. Meu ciúme e a mania dele de se fechar em si mesmo e negar que houvesse qualquer coisa de errado, mesmo que suas atitudes gritassem o contrário. Nossas brigas, as rudes palavras que por mais que quiséssemos, jamais poderíamos pegar de volta.

“Diga-me que você já teve o bastante do nosso amor, nosso amor. Dê-me apenas um motivo…” De repente a verdade dos fatos me atingiu como um tapa. Senti as lágrimas abrindo caminho por meu rosto, porém não fiz nenhum esforço para secá-las. Eu não havia tido o bastante. Nunca teria o bastante de Michael. Quis gritar essas palavras, mas me parecia tão errado interromper a música que me calei, mais uma vez.

“Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados…” Aquela voz que eu conhecia e amava elevou-se. Michael abrira os olhos e aqueles lagos de emoção me fitavam, como jamais haviam feito antes. Em um frêmito, as palavras deslizaram de seus lábios: “E podemos aprender a amar novamente…”.

Acho que somente naquele momento eu compreendi o que significava tudo aquilo. Michael não estava brincando comigo. Estava… Pedindo para voltar. Até esse pensamento era esperançoso demais para que eu sequer me arriscasse a concebê-lo, mas olhando para aquele rosto lindo, meigo e transbordando amor, eu não pude me conter. “Está nas estrelas… foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações. Não estamos quebrados, apenas curvados. E podemos aprender a amar novamente…” Continuou Michael, indiferente a tempestade que se instalara dentro de mim.

Eu queria estreitá-lo junto a mim, tomar seus lábios nos meus e garantir que tudo ficaria bem. Eu queria… Queria tanta coisa. Mas vi-me incapaz de sair do lugar. Ainda havia uma dúvida, no fundo do que ainda me restava de racionalidade, que sussurrava: “cuidado”.

“Desculpe-me se não entendo, de onde é que tudo isto está vindo. Pensei que estivéssemos bem (oh, tínhamos tudo…)” Sim, nós tínhamos. Eu também não entendo o que foi que deu errado. Pensava em Michael, se ele também pensava em mim da forma que eu pensava nele. Todos os dias, várias vezes. Com os detalhes mais bobos e nas situações mais normais. Lá estava o meu Mike. “Minha querida, ainda temos tudo…” Temos, pensei. E não podemos desperdiçar.

“Oh, o nosso amor, o nosso amor… Dê-me apenas um motivo. Só um pouquinho já basta…” Cantou ele, mais uma vez. Eu não tinha um motivo. Não sabia por que tínhamos que ficar separados. Nada mais importava. Quem terminou quem errou quem voltou atrás. Era tudo passado. Michael, meu Michael. Estava me fazendo uma serenata. Inacreditavelmente doce.

Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados… E podemos aprender a amar novamente. Está nas estrelas, foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações… Não estamos quebrados, apenas curvados. E podemos aprender a amar novamente… Quando aquelas palavras flutuaram até mim, eu soube que nada mais faltava. Minhas últimas defesas caíram por terra e desci a escada correndo, até Michael. Para mim. Era para mim que ele cantava.

“Dê-me apenas um motivo, só um pouquinho já basta…” Interrompi suas palavras com um beijo frenético, apaixonado, que exigia mais a cada instante. Entrelacei meus braços em seu pescoço, aproximando-me mais, com apenas o violão entre nós. Separamo-nos, as respirações sincronizadas. Ele afastou-se apenas o suficiente para soltar no chão o violão e puxou-me para seu colo. Ele sabia que eu já havia dito sim.

“E podemos aprender a amar novamente, Nunca parei… Você ainda está escrito nas cicatrizes no meu coração. Você não está quebrado, apenas curvado. E podemos aprender a amar novamente.” Cantou ele baixinho, os lábios roçando de leve o lóbulo da minha orelha.

“Vou consertar isso para nós. Estamos recolhendo poeira, Mas o nosso amor é o bastante… Você o está segurando. Não, nada é tão ruim quanto parece. Diremos a verdade…” A música seguia, preenchendo-me por inteira. Pus-me de pé rapidamente, puxando Michael comigo. Surpreso, ele não relutou. Abraçamo-nos apertado e unimos os lábios em mais uma promessa.

Eu já sabia aquele refrão, que agora estava impresso em mim para sempre.  Cantamos como um só. “Dê-me apenas um motivo. Só um pouquinho já basta. Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados. E podemos aprender a amar novamente. Está nas estrelas, foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações. Não estamos quebrados, apenas curvados. E podemos aprender a amar novamente…” Michael olhou-me nos olhos e sussurrou: “Eu te amo, Chiara.” Afastou a mão das minhas costas e retirou algo do bolso. De repente virou-me de costas com habilidade e colou seu corpo ao meu. Senti meus cabelos sendo gentilmente afastados e algo frio ser colocado em meu pescoço.  Quando olhei, um pequeno pingente em forma de rosa descansava entre meus seios. Era lindo, puro e encantador. Como um recomeço. O nosso recomeço. Fui incapaz de pronunciar qualquer palavra. Busquei os lábios de Michael com fervor. Beijamo-nos naquela posição improvável, muitas e muitas vezes.

Naquele momento eu realmente acreditei em segundas chances. E soube que a minha felicidade estava agora ao meu lado, portanto, eu deveria fazer de tudo para mantê-la comigo.

Ana Santiago

 

Música: Just Give Me a Reason (feat. Nate Ruess) – Pink


Tradução: Dê-me apenas um motivo

Bem desde o começo

Você foi um ladrão, você roubou meu coração

E eu, sua vítima condescendente

Deixei que você visse partes de mim

Que não eram tão bonitas

E, a cada toque

Você as consertou

 

Agora, você tem falado durante o sono, oh oh

Coisas que nunca diz para mim, oh oh

Diga-me que você já teve o bastante

Do nosso amor

Nosso amor

 

Dê-me apenas um motivo

Só um pouquinho já basta

Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

Está nas estrelas

Foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações

Não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

 

Desculpe-me se não entendo

De onde é que tudo isto está vindo

Pensei que estivéssemos bem (oh, tínhamos tudo)

Sua cabeça está perdendo o controle novamente

Minha querida, ainda temos tudo

E está tudo na sua mente (Sim, mas isto está acontecendo)

 

Você tem tido sonhos muito ruins, oh, oh

Você costumava deitar-se tão perto de mim, oh, oh

Não há nada além de lençóis vazios

Entre o nosso amor, nosso amor

Oh, o nosso amor, o nosso amor

 

Dê-me apenas um motivo

Só um pouquinho já basta

Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

Nunca parei

Você ainda está escrito nas cicatrizes no meu coração

Você não está quebrado, apenas curvado

E podemos aprender a amar novamente

 

Oh, canais lacrimais e ferrugem

Vou consertar isso para nós

Estamos recolhendo poeira

Mas o nosso amor é o bastante

Você o está segurando

Você está servindo um drinque

Não, nada é tão ruim quanto parece

Diremos a verdade

 

Dê-me apenas um motivo

Só um pouquinho já basta

Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

Está nas estrelas

Foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações

Não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

 

Dê-me apenas um motivo

Só um pouquinho já basta

Só um segundo, não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

Está nas estrelas

Foi escrito nas cicatrizes dos nossos corações

Não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

 

Oh, podemos aprender a amar novamente

Oh, podemos aprender a amar novamente

Oh, que não estamos quebrados, apenas curvados

E podemos aprender a amar novamente

 

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